Revelamos aqui as causas e efeitos da insegurança pública e jurídica no Brasil, propondo uma ampla mobilização na defesa da liberdade, democracia, federalismo, moralidade, probidade, civismo, cidadania e supremacia do interesse público, exigindo uma Constituição enxuta; Leis rigorosas; Segurança jurídica e judiciária; Justiça coativa; Reforma política, Zelo do erário; Execução penal digna; Poderes harmônicos e comprometidos; e Sistema de Justiça Criminal eficiente na preservação da Ordem Pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio.

sábado, 7 de dezembro de 2013

A ILHA DO SILÊNCIO DE MANDELA


ZERO HORA 07 de dezembro de 2013 | N° 17637

ARTIGOS

 Ricardo Kuchenbecker*



Em silêncio, embarquei num ferry boat que percorreu decidido os sete quilômetros entre a ilha de Robben (Robben Island) e a Cidade do Cabo. Lá fica o presídio agora museu onde Nelson Mandela viveu 18 dos 27 anos após ser sentenciado pela luta contra o apartheid, regime segregacionista branco vigente entre 1948 e 1994, na África do Sul.

Robben Island testemunhou a resistência do país contra o racismo. O clima da ilha é inóspito. O solo, árido. A vegetação, escassa. O sol comprometeu inexoravelmente a visão de muitos, entre os quais, Mandela. O local é pequeno para tanto simbolismo. Pouco mais de três quilômetros de extensão encravados no mar revolto da região conhecida por sepultar esperanças de navegadores na busca por novas terras.

Em celas individuais de quatro metros quadrados, Mandela e outros líderes negros resistiram por anos. Deslocavam-se diariamente à pedreira da ilha, onde quebravam pedras durante horas. Só ao vento incessante era permitido gritar. Atestava, diariamente, a impossibilidade da fuga.

Desafiando a perversidade do confinamento, a ilha continha outra dentro de si. Esta simbólica, representada pela cela onde Robert Sobukwe, maior líder político negro sul-africano, viveu em isolamento. Admitido pelo regime branco como o único preso político da ilha, Sobukwe teve sua prisão renovada ano a ano, até morrer depois de seis anos de completo isolamento e desesperança. Foi o recado tácito mais cruel da ditadura.

Nos períodos de descanso, aos condenados era permitido refugiar-se numa caverna na pedreira. Lá, os líderes anti-apartheid alfabetizaram alguns presos e promoveram a educação política de outros, para mais tarde conduzirem pacificamente a transição para a democracia racial.

Mandela conduziu pacificamente a maior reconciliação que um país já viveu. Munido apenas pelo diálogo, tornou-se o primeiro presidente negro eleito pela África do Sul. Já presidente, o preso 46664, retorna à ilha em 1995 para uma visita emblemática. Em silêncio, depositou uma pequena pedra no chão, em frente à pedreira. Seu gesto foi seguido pelos demais líderes políticos presentes. Nenhuma palavra foi dita. Juntas, formaram um monte de pedras que simbolizou anos de solidariedade na luta por igualdade. Como aqui, as pedras estão lá até hoje. Gritam por Brasis e Áfricas do Sul socialmente mais iguais e justos. Como os demais, parti em silêncio emocionado da prisão-museu. Deixamos todos um pedaço de si por lá.

*Professor de epidemiologia da Faculdade de Medicina da UFRGS, chefe do Serviço de Emergência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre



COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Na ilustração abaixo a capa do melhor filme que assisti sobre Mandela. É capaz de fazer o expectador entrar no cenário e sentir a luz que sai da figura do Mandela através do ator e como esta irradiação exercia uma força reconciliadora e surpreendente entre seus guardas. 


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

CRIMES DE CALÚNIA, DIFAMAÇÃO OU INJÚRIA COMETIDOS PELA INTERNET


BLOG DO DIONES ANTONIO, sábado, 28 de abril de 2012

 Glaydson Lima


Introdução


O internauta quer seja um blogueiro ou um usuário de uma rede social como o Orkut , Facebook, Twitter etc... muitas vezes esquece que as relações entre brasileiros, mesmo a realizadas na internet, estão sujeitas à lei. A internet possui uma ampla área sem definição de normas, principalmente quando trata de relação entre pessoas e empresas de países diferentes, porém em muitos casos existe clara definição legal, em particular no Código Penal.


Uma destas áreas já protegida pelas leis brasileiras é o que refere-se aos crimes contra a honra: calúnia, difamação e injúria. Notadamente existe uma grande confusão sobre os termos e este texto busca esclarecer as diferenças para que os internautas não sejam penalizados sem o conhecimento, pois autor não pode alegar desconhecimento da lei. Desta forma segue a explicação sobre cada um dos crimes.


Informações Iniciais


Este texto tenta ser o mais simples possível, e evita termos jurídicos. Pode não ser a explicação mais acadêmica, mas será a de mais fácil compreensão ao internauta médio.
Considera-se que o ato de ofensa pode ser realizado via qualquer sistema (site, blog, mensageiros, e-mail). Normalmente, na internet, ocorre com textos escritos, mas pode ocorrer através de sistema de transmissão de voz e vídeo.


Calúnia

Art. 138 - Caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato definido como crime:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, e multa.
§ 1º - Na mesma pena incorre quem, sabendo falsa a imputação, a propala ou divulga.
§ 2º - É punível a calúnia contra os mortos.


Neste crime o autor divulga falsamente ato definido como crime a vítima, logo deverá existir alguma descrição correspondente no texto na lei como “fulano roubou a empresa X”. No texto citado houve uma correspondência com o crime de roubo, porém dizer que “fulano é ladrão” constitui uma declaração de uma falta de qualidade moral e não uma especificação de um fato criminoso, desta forma não pode ser descrita como calúnia. Já escrever “fulana traiu o marido no dia X” também não constitui calúnia porque já não mais existe o crime de adultério.


No crime de calúnia é necessário a intenção de divulgar fato falso definido como crime. Se não houve intenção de informar dado falso não constitui este crime, porém se houver dúvida na acusação e mesmo assim o autor a divulgou, será calúnia. Boa parte dos estudiosos do Direito (doutrina) alega que é necessário a intenção de ofender, porém não é consenso nos tribunais.
Calúnia só existe quando existe divulgação, logo é necessário que a falsa afirmação chegue ao conhecimento de uma pessoa que não seja o ofendido. Se for um e-mail ou mensagem eletrônica de conteúdo visto apenas pelas partes não trata-se de calúnia.


Difamação

Art. 139 - Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação:
Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.


No crime de difamação trata da divulgação de fato ofensivo a reputação. Como a calúnia, também é necessário que chegue ao conhecimento de terceira pessoa, e que exista intenção de ofender, porém é importante distinguir que a acusação pode ser falsa ou verdadeira, ou seja, a divulgação de informação mesmo verdadeira que crie uma visão social negativa é difamação. O dano é ferir a reputação daquele para quem foi direcionado a acusação. Assim, a divulgação da acusação que uma pessoa traiu o seu cônjuge, mesmo que verdadeira, é considerada difamação. Se o fato alegado constitui crime e for falso, trata-se de calúnia e não de difamação.


Injúria

Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.


Este crime trata do sentimento pessoal do acusado, logo não precisa ser divulgado para terceira pessoa para que ocorra, já que a mensagem direta entre dois internautas pode ser definida como injúria. Trata-se de afirmações ou atos que ataquem como negativas as qualidades do acusado.


Retratação


É o ato que permite que o autor, antes da sentença, nos casos de calúnia e difamação, negue a acusação alegada e propagada. Na injúria não é possível pois é um sentimento pessoal que não será restabelecido pelo novo posicionamento do autor.


Ameaça

Art. 147 - Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.


Outro crime comum existente na internet, é o crime de ameaça que está localizado no capítulo de Crimes Contra a Liberdade Individual. O fato de alguém escrever um scrap no Orkut ou mensagem em fórum intimidando uma pessoa com mal justo como por exemplo “eu vou te matar” ou “estarei de olho na sua família” são ameaças definidas como crime.


Texto - Glaydson Lima é advogado em Fortaleza , graduado em Direito e Informática, com MBA em Gestão de Negócio.

GRANDE ESTADISTA, HOMEM SUPERIOR

ZERO HORA 06 de dezembro de 2013 | N° 17636


EDITORIAIS


Ele foi imprescindível para a África do Sul e exemplar para o mundo.

Depois de 27 anos como preso político, Nelson Mandela assumiu a presidência do seu país, evitou uma guerra racial e um colapso econômico. Entrou na prisão como guerrilheiro e saiu como pacifista. Mais do que um herói nacional, transformou-se num legítimo santo de casa capaz de verdadeiros milagres. Mereceu a devoção e a idolatria de seus conterrâneos.

E mereceu, também, o prêmio Nobel da Paz, que lhe foi concedido em 1993 como reconhecimento ao homem que sacrificou a própria liberdade para promover a igualdade racial. Sua mensagem de fraternidade é digna dos maiores filósofos da humanidade: “Um homem que tira a liberdade do outro é um prisioneiro do ódio, ele está trancado atrás da barreira do preconceito e da intolerância. O oprimido e o opressor, igualmente, têm sua humanidade roubada”.

Antes de se transformar em referência e inspiração para o mundo, Mandela fez o mais difícil: transformou a si próprio. De advogado e militante de um movimento pacífico de defesa dos negros, ele virou ativista e líder de uma organização armada quando o governo branco promoveu o Massacre de Sharpeville, em 1960. Perseguido e preso por sua militância, passou por nova transformação durante o seu prolongado encarceramento, saindo sem ódio nem desejo de vingança. Tornou-se, então, uma liderança prudente e serena, mas também determinada o suficiente para conduzir seu país a um estágio de prosperidade que parecia impossível numa sociedade tão dividida.

A África do Sul se uniu em torno de Mandela. O próprio continente africano passou a reverenciar o homem que ficou atrás das grades dos 44 aos 72 anos, transformando-se no preso político mais importante do mundo, mobilizando a comunidade internacional por sua soltura e, por fim, reconquistando a liberdade para promover eleições multirraciais e livrar definitivamente a maioria negra da opressão.

Mandela foi um estadista inigualável. Mas, acima de tudo, foi um homem superior – superior ao ódio, superior às mesquinharias da política, superior às injustiças, superior à atrocidade da desigualdade racial.


O LEGADO DE UM MITO

ZERO HORA 06 de dezembro de 2013 | N° 17636


NELSON MANDELA



A África do Sul, governada há quase 20 anos pelo partido de Mandela, o Congresso Nacional Africano (CNA), suprimiu as barreiras raciais e conseguiu fazer emergir uma classe média urbana multirracial capaz de pagar escolas de qualidade para seus filhos.

Mas, desde 2009, o crescimento econômico se estancou, e as tensões sociais se acumulam. No fim de 2012, uma onda de greves selvagens, que deixou 60 mortos e se estendeu ao longo de 2013, acelerou a depreciação da moeda.

O país mais rico do continente africano tem mais da metade da população vivendo abaixo da linha da pobreza (52%) e o desemprego é crônico. “O que morre com Mandela?”, questionou um editorial da imprensa sul-africana.

Nelson Mandela esperava fervorosamente que o começo da democracia na África do Sul fosse o início de um recomeço político, econômico, cultural e social que se espalharia por toda a África e, de uma vez por todas, acabaria com a percepção do continente como “perdido”.

Frequentemente, a transição da África do Sul à democracia e à paz é descrita como um milagre político. Muitos acreditavam que o conflito no país tão intratável que uma solução pacífica e reconciliação entre negros e brancos ia além do impossível. Mandela, que passou quase três décadas aprisionado pelo regime por causa de seu ativismo contra o sistema brutal, tornou-se símbolo do milagre da transição. Sua habilidade de, visivelmente, perdoar e olhar para o futuro foi o fundamento da nova democracia, digno de conto de fadas.

A contribuição histórica de Mandela à democracia em desenvolvimento na África do Sul era ajudar a costurar um consenso amplo para a nova ordem democrática. Seu propósito era “conquistar um novo espaço para respirar, onde impulsos poderiam ser resolvidos, inimizades, subjugadas, e as afinidades se reformulariam”. Ao longo da transição, sua liderança ajudou a manter a confiança da maioria negra pobre e a lealdade para com o CNA. Ajudou também a aliviar os temores da classe média predominantemente branca, bem tratada e alcovitada durante décadas, e com medo da maioria negra.

Mandela, muitas vezes, criticou publicamente os sul-africanos brancos, mas suas advertências foram abrandados em virtude de seus sorrisos e abraços – ele até mesmo abraçou seu carcereiro na antiga prisão. O homem alto, de riso fácil – em discursos, constantemente zombava de si mesmo carinhosamente –, com suas camisetas folgadas mesmo em ocasiões formais, abriu muitos aspectos de sua vida, incluindo um complicado divórcio de Winnie Madikizela-Mandela ao escrutínio público. Mandela era um político hábil, com gestos imaginativos, muitos deles no campo dos esportes. Ele era o mestre das comunicações, com um talento para o gesto simples, que fala com a alma a seus compatriotas. Durante o mundial de rúgbi, em 1995, Mandela demonstrou isso e se tornou querido pelos brancos ao ostentar a camisa número 6 do capitão do time sul-africano, François Pienaar.

Ainda na presidência, deixou claro sobre como gostaria de ser lembrado na História. Em um discurso na Universidade de Potchefstroom, em fevereiro de 1996, disse: “Vou passar por esse mundo apenas uma vez. E não quero desviar minha atenção de minha tarefa – a qual é unir a nação”. Ainda mais reveladora foi a frase seguinte: “Estou escrevendo meu próprio testamento porque estou me aproximando de meu fim. Quero poder dormir pela eternidade com um largo sorriso em meu rosto, sabendo que a juventude, os formadores de opinião e toda gente está tentando unir a nação”.

*Professor da Universidade de Witwatersrand e prefaciador de No Easy Walk to Freedom, de Mandela (Clarke’s, 2013)

WILLIAM GUMEDE*


HERÓI DA TOLERÂNCIA


ZERO HORA 06 de dezembro de 2013 | N° 17636

DAVID COIMBRA

NELSON MANDELA

Aos 95 anos, morreu ontem o homem que era um herói acima de facções, acima de fronteiras e acima de religiões. Nelson Mandela, um orador que discursava para todos os tons e representava todas as cores, necessariamente juntas, deixou o mundo ao qual ensinou lições de aceitação do diferente. O ícone da luta contra o apartheid não resistiu aos graves problemas pulmonares decorrentes de uma tuberculose contraída na ilha de Robben Island, perto de Cidade do Cabo, onde passou 18 dos 27 anos de detenção durante o regime de segregação racial.

Nelson Rolihlahla Mandela foi o maior gênio político da história da humanidade. Ninguém o superou, nem os conquistadores bélicos Júlio César, Alexandre e Napoleão, nem os campeões da democracia Churchill e Lincoln. Ninguém. Porque Nelson Rolihlahla Mandela conseguiu algo que nenhum desses líderes mundiais conseguiu: sem dar um tiro, sem erguer a mão ou a voz, apenas com a inteligência e o poder de argumentação, Mandela pacificou uma nação inteira.

Foi uma façanha única, porque o regime racista da África do Sul era único. Jamais houve um lugar no planeta em que não existisse racismo, verdade, mas, no caso da África do Sul, o racismo era o núcleo do Estado. O nazismo e o fascismo eram dogmaticamente racistas, mas, sob esses regimes, ainda havia um pouco de hipocrisia pública, uma farsa legal. Na África do Sul, não. Nunca a segregação racial foi tão aberta, tão oficial, quanto na África do Sul. Uma segregação com nome próprio: apartheid.

Mandela foi, ele próprio, vítima do apartheid. Quando jovem, Mandela fez por merecer seu nome do meio. Rolihlahla, em xhosa, significa “encrenqueiro”. Mandela era um encrenqueiro a favor dos direitos dos negros. Um militante da luta armada. Por isso, foi preso em 1962. Passou 18 dos 27 anos de detenção isolado em uma ilha, vivendo numa pequena cela do tamanho de um banheiro. Nesse tempo, conheceu seus carcereiros, aprendeu com eles e se transformou. Quando saiu da cadeia, Mandela não pregava mais a luta; pregava a paz. Pela paz, venceu.

Conheci Mandela nessa época. Em 1991, estava preparando uma reportagem sobre os 30 anos da Campanha da legalidade e fui ao Rio para entrevistar o então governador do Estado, Leonel Brizola. Mandela também se encontrava no Rio, e também queria falar com Brizola. Um ano antes, fora libertado; três anos depois, seria eleito presidente. O encontro dele com Brizola estava marcado. O meu, não. Brizola não aceitava falar sobre a Legalidade, talvez para não irritar os militares, ele que ainda aspirava ser presidente do Brasil. Fiquei dois dias e duas noites de plantão na antessala do gabinete dele, insistindo com a entrevista, e nada. Nesse ínterim, os secretários de Estado do Rio se sensibilizaram com meu drama. Um deles contou que Brizola se reuniria no fim da tarde com Mandela, no Copacabana Palace. A entrada da imprensa seria proibida na primeira parte do encontro, mas o secretário se dispôs a furar o bloqueio e me colocar diante de Brizola. A partir daí, tudo comigo.

De fato, no fim da tarde, lá estava eu, no saguão do Copacabana Palace, em frente a Nelson Mandela e a Leonel Brizola. Olhei para Mandela, um homem muito alto, de aparência serena. Ele me olhava e sorria com candura, decerto surpreso com aquele jornalista que tanto falava com Brizola, sem lhe dar a menor importância. Bem. Falei, falei, falei e Brizola NÃO CONCORDOU em conceder a entrevista. Fiquei desesperado. Para conseguir a viagem, eu HAVIA MENTIDO ao diretor de redação que a entrevista estava marcada. Ou seja: seria demitido, se voltasse sem a palavra de Brizola. Mas agora Brizola e Mandela já se afastavam para se reunir a portas fechadas e depois receberam a imprensa e só muito mais tarde acabei praticamente saltando sobre Brizola e convencendo-o a me dar a entrevista, o que ocorreu depois da meia-noite.

No fim, deu tudo certo com a matéria, mas... e Mandela? Eu, de certa forma, havia ignorado Mandela... Talvez não houvesse muito mais a fazer naquela circunstância, mas hoje estremeço ao pensar que estive a um braço de distância dele, o maior gênio político da história da humanidade. Mais inconformado fiquei ao conhecer in loco a obra de Mandela, quando fui à África do Sul, na Copa de 2010. Conversando com os sul-africanos brancos e negros, fiquei espantado: todos apresentavam o mesmo discurso. Todos. Cem por cento. Os sul-africanos repetiam que precisavam esquecer o passado, que tinham de conviver uns com os outros para construir uma nação e que, para isso, necessitavam de tolerância. Em resumo, Mandela os convenceu a perdoar. Em apenas quatro anos, Nelson Rolihlahla Mandela fez com que milhões de ex-oprimidos que sentiam raiva e milhões de ex-opressores que sentiam medo relegassem suas fúrias e seus temores em nome da paz.

Neste sentido, a obra de Mandela é a maior obra cristã da Terra, desde que Jesus arrastou as sandálias pelo pó da Palestina, há 20 séculos. “Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo”, bradou Jesus, no Sermão da Montanha, e acrescentou: “Ouviste que foi dito: olho por olho, e dente por dente. Eu digo-vos: não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica dá-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas”.

Nunca ninguém conseguiu obedecer a essa ordem cristã, que é o cerne duro do cristianismo. Nem a própria Igreja, com sua Inquisição, suas Cruzadas e suas Guerras de Religião, foi capaz de amar seus inimigos. Mandela foi. E mais: ele fez com que milhões de outros homens compreendessem a verdade deste conceito, e o fez funcionar na prática. A África do Sul de Mandela é o cristianismo aplicado.

O mais admirável da façanha de Mandela nessa África do Sul multirracial da bandeira do arco-íris é que o país tornou-se assim exclusivamente por causa dele. Por causa de Mandela. Prova-o a história da chamada Noite da Faca. Segundo essa espécie de lenda que corre pelas savanas tórridas do interior e pelo asfalto cinzento das grandes cidades, os negros sul-africanos se armariam de facas, cutelos e outros instrumentos cortantes no dia da morte de Mandela. Então, sairiam à rua para apunhalar todos os brancos que encontrassem. Seria a vingança pelos anos de apartheid, vingança que eles reprimiram tão-somente porque Mandela pediu.

Quando eu perguntava a brancos e negros sul-africanos se eles acreditavam que ocorreria a Noite da Faca, eles em geral erguiam as sobrancelhas e respondiam:

– Acho que não...

“Acho”. Não uma certeza. “Acho”. Como se a Noite da Faca pudesse mesmo acontecer e não fosse, como ora se constata, nada mais do que uma lenda. O fato de essa história ter sido concebida é um atestado do que representa Mandela para a África do Sul. A mera existência dele impediria a revanche ansiada. Seu desaparecimento seria o desaparecimento do grande pai, do grande líder, do homem que dizia o que era certo e o que era errado. Só que a construção de Mandela é ainda maior, porque não será derrubada com sua morte. Mandela convenceu as mentes sul-africanas e, convencendo-as, infiltrou-se em suas almas. Ele mostrou o que é o certo a fazer, e é assim que eles continuarão fazendo. “Vós sois o sal da terra”, disse-lhes Mandela. E eles acreditaram nele.

MORRE O ÍCONE MUNDIAL QUE COMBATEU A SEGREGAÇÃO COM RECONCILIAÇÃO

ZERO HORA 05/12/2013 | 19h52

Morre o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela. Após 27 anos preso, líder negro combateu o racismo do Apartheid e chegou ao mais alto cargo no país


Foto: ANNA ZIEMINSKI / AFP


Morreu nesta quinta-feira, aos 95 anos, em Pretória, o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela. Enquanto lutava contra a infecção pulmonar que o levou, Mandela foi seguido pelas vigílias e melhores sentimentos de seus compatriotas. Ele morreu ao lado da família, às 20h50min (16h50min, em Brasília).

O anúncio foi feito quatro horas depois, e o pesar se estendeu ao mundo. Amigos, líderes que por ele foram inspirados e até mesmo rivais manifestaram tristeza pela partida e admiração por seu altruísmo e vontade de justiça. O funeral deve durar 10 dias - e, pela mesma quantidade de tempo, as bandeiras da África do Sul serão hasteadas a meio-mastro.

— Na falta de uma palavra melhor... em seu leito de morte ele está nos ensinando lições. Lições de paciência, amor, tolerância — disse na quarta-feira Makaziwe, filha do ex-presidente, em uma entrevista à emissora local SABC.

Mandela era um herói acima de facções, fronteiras e religiões. O orador que discursava para todos os tons e representava todas as cores, necessariamente juntas, deixou o mundo ao qual ensinou lições de aceitação do diferente.

O ícone da luta contra o apartheid completou 95 anos em 18 de julho, mas não resistiu aos graves problemas pulmonares decorrentes de uma tuberculose contraída na ilha de Robben Island, perto de Cidade do Cabo, onde passou 18 dos 27 anos de detenção durante o regime de segregação racial.

Com um currículo repleto de superlativos, Nelson "Madiba" Mandela era o protótipo do mito. Ainda assim – ou até por isso –, chegou ao fim da vida rechaçando a imagem de "santo". Pretendia ser apenas um "homem de família", que amargou, depois de aderir fugazmente à luta armada (dedicada a sabotar o regime racista) e voltar a rejeitá-la, o isolamento na prisão. Foi o primeiro presidente negro da África do Sul marcada pelo racismo do regime segregacionista que se impunha como modelo cultural. Enfim, devotou-se à bandeira da tolerância.

Da longa prisão, tirou uma certeza, escrita para sua mulher à época, Winnie Mandela:

"A cela é um lugar ideal para aprendermos a nos conhecer." Era 1º de fevereiro de 1975 quando escreveu essa carta — estava preso desde 1962. Solitário em sua prisão minúscula, aferrou-se à leitura. E, da leitura, extraiu o lema para o que restava da sua vida: "Por ser estreita a senda, eu não declino/Nem por pesada a mão que o mundo espalma/Eu sou dono e senhor de meu destino/Eu sou o comandante de minha alma."

É um trecho do poema Invictus, escrito pelo britânico William Henley e tema de um filme sobre sua atuação quando usou o Rugbi para unir o país.

A máxima, de ser o comandante da própria alma, explica a vida de Mandela, especialmente depois da sua libertação, em 11 de fevereiro de 1990. Ganhou o Nobel da Paz em 1993, ao lado do último presidente do regime de apartheid, Frederik de Klerk, pelas negociações que transformaram uma ditadura racial em democracia multirracial. Presidiu a África do Sul entre 1994 e 1999, em um governo elogiado pelos ventos de pacificação, mas também criticado por não deter o avanço da aids e por se aproximar de quem antes discriminava os negros. Em 2004, anunciou que se afastava da vida pública. Depois de chegar à velhice costurando os tecidos de uma nação separada pelo ódio racial, lutou para unir o próprio clã.


A filha Zindzi, escreveu o seguinte poema em 1980, quando ele estava na prisão:

Uma árvore derrubada/E os frutos se espalharam/chorei/porque havia perdido uma família/o tronco, meu pai/os galhos, seu apoio .

O filho mais velho, Thembi, morreu em 1969, aos 24 anos. E o agravante: preso, Mandela não pôde ir aos funerais. Veio o remorso por, distante, não ter acompanhado o crescimento dos filhos, sem "banhá-los, alimentá-los e contar-lhes histórias", conforme escreveu, deprimido, na prisão. E mais ele escreveu: "Minha mente e meus sentimentos estiveram demasiado agitados para eu me dar conta das tensões psicológicas que minha ausência provocou nos meus filhos." Por isso, dizia não ser "santo".

Ele tentou e conseguiu: uniu seu país, serviu de exemplo, reaproximou-se dos afetos. Na última aparição pública, na final da Copa do Mundo de Futebol em 2010, na África do Sul, a multidão celebrou o que Mandela tornou possível.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

DE QUEM É A CULPA

ZERO HORA 05 de dezembro de 2013 | N° 17635

ARTIGOS

 Ronald Krummenauer*



Nas faculdades de Administração de Empresas, existe uma brincadeira que diz que o importante é encontrar o culpado e não necessariamente resolver o problema. Fora da universidade, a piada ficou séria e, pior, virou hábito. Há muito tempo que a preocupação no Brasil é descobrir o culpado e deixar de lado a solução. Como sair dessa armadilha? A culpa não é só do poder público. É nossa também. As pequenas e grandes infrações diárias que cometemos ajudam a piorar a vida dos brasileiros. Como admitir que água para ser consumida por pessoas seja transportada em tanques que já receberam combustível? Problema de fiscalização pública? Com certeza, mas e o dono da empresa e o motorista do caminhão, que sabiam da irregularidade, como conseguem dormir à noite? Como uma criança que bebe água contaminada vai aprender na escola ou, pior, como não passar mais tempo no posto de saúde do que na escola? Como aceitar essa irresponsabilidade? Lembro de uma gravação da fraude do leite contaminado do Rio Grande do Sul na qual um dos transportadores pedia para que o leite dos seus filhos não fosse batizado. Isto é só um problema do poder público?

O incêndio do Memorial da América Latina em São Paulo foi mais grave do que o inicialmente esperado e a reação das autoridades foi colocar a culpa na “outra instância”. Faz diferença para a população se a “instância” correta é municipal, estadual ou federal? Claro que não. O problema será resolvido para que não se repita no futuro? Também claro que não!

É um problema cultural, de comportamento, de caráter e esse tipo de atitude só resolvemos com educação básica e com bons exemplos. Qual o modelo e que tipo de educação estamos deixando para a geração seguinte? É digno o que estamos fazendo?

Precisamos refletir se o que estamos construindo irá se sustentar no futuro. Não se trata da solidez de estádios e estradas, mas a qualidade e a firmeza de caráter das pessoas que estamos construindo.


*DIRETOR EXECUTIVO DA POLO RS – AGÊNCIA DE DESENVOLVIMENTO E DA AGENDA 2020