Revelamos aqui as causas e efeitos da insegurança pública e jurídica no Brasil, propondo uma ampla mobilização na defesa da liberdade, democracia, federalismo, moralidade, probidade, civismo, cidadania e supremacia do interesse público, exigindo uma Constituição enxuta; Leis rigorosas; Segurança jurídica e judiciária; Justiça coativa; Reforma política, Zelo do erário; Execução penal digna; Poderes harmônicos e comprometidos; e Sistema de Justiça Criminal eficiente na preservação da Ordem Pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

APLAUSOS PARA OS SOLDADOS


APLAUSOS PARA OS SOLDADOS - Editorial Zero Hora, 29/11/2010

Os brasileiros passaram o fim de semana com as atenções voltadas para o Rio de Janeiro, palco de um combate sem precedentes entre o poder público legitimamente constituído e a criminalidade que há décadas aterroriza o país. O que todos estamos vendo nas favelas cariocas, nos últimos dias, não é apenas uma luta isolada entre a polícia fluminense e traficantes de droga que haviam se apossado de algumas áreas da Cidade Maravilhosa. Vemos, isto sim, a esperada reação da sociedade brasileira, representada pelas forças policiais e pelas Forças Armadas, contra o estado de insegurança que atinge todas as áreas da nação.

Por isso, está sendo celebrada com tanto entusiasmo a participação de tropas e equipamentos da Marinha e do Exército na operação de cerco aos traficantes. É com muito orgulho e esperança que o povo brasileiro vê os militares saindo dos quartéis para protegê-lo, derrubando também restrições históricas à participação das Forças Armadas no controle da violência urbana.

Nosso inimigo atual não é externo. Nenhum país ameaça a segurança nacional. Mas os brasileiros vivem ameaçados por um inimigo que não tem bandeira, o tráfico de drogas, responsável por expressiva parcela da violência e também pela importação ilegal de armas. Cabe, portanto, a presença ostensiva das Forças Armadas no enfrentamento dessa ameaça.

E a presença de militares na operação fluminense está mais do que respaldada pela Constituição. De acordo com a Carta vigente, as Forças Armadas devem atuar em quatro frentes: na defesa da pátria, na garantia dos poderes constitucionais, na garantia da lei e da ordem e em operações humanitárias e de cooperação internacional. Ainda que a defesa da lei e da ordem seja competência primária das forças de segurança pública, o caráter excepcional do combate ao tráfico justifica plenamente a participação de tropas, equipamentos e armas militares. No caso da situação do Rio de Janeiro, essa presença das Forças Armadas foi acionada dentro de absoluto respeito às normas legais, respaldado no que prescreve o art. 144 da Constituição. Aliás, são essas mesmas normas que facultam a qualquer dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – convocar tropas do Exército, da Marinha ou da Aeronáutica para enfrentar situações como a do Rio, onde havia um histórico desafio à lei e à ordem e onde, pelo resultado do tráfico de drogas e do crime organizado, a bandidagem havia estruturado um poder paralelo.

Por isso, o Brasil aplaude seus soldados e aplaude a decisão de fazer com que as Forças Armadas, com a autoridade que têm e o poder de sua organização, cumprissem seu papel institucional. Ao participar ativamente da retomada de territórios dominados pelo tráfico de drogas no Rio de Janeiro, as Forças Armadas ajudam a devolver aos brasileiros a esperança de paz no dia a dia de suas vidas.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA
- Devemos sim aplaudir os soldados. Porém, há de se salientar que as forças armadas agiram sem respaldo da lei, mas observaram os limites e tiveram a sorte de não entrarem numa chacina desencadeada pela reação das bandidagem. Se isto ocorresse estariam em maus lençóis. Por isto, devemos redobrar nossos aplausos para a determinação do Presidente Lula que autorizou e do Ministério da defesa e dos comandantes da Marinha, Exército e Aeronautica de passarem por cima da ausência da lei para conflitos como a guerra do Rio e integrarem os esforços para vencer o crime. Esta decisão garantiu as forças policiais a logística necessária para cercar, sufocar, prender a bandidagem e apreender uma grande quantidade de armas, drogas e motocicletas, e ainda resgatar a confiança dos moradores.

Devemos também exigir do Congresso Nacional, que esteve ausente neste episódio, a criação de uma lei para legalizar a participação das Forças Armadas contra conflitos desta natureza com medidas que possam salvaguardar os moradores. No Haiti, elas agiam respaldas por leis da ONU. Aqui, viu-se a dificuldade das forças de segurança em fazer as pessoas sairem das ruas, simplesmente por não haver respaldo para um toque de recolher.

A GUERRA DO RIO - MORRO, SELVA E MAR

Morro, selva e mar, por Cláudio Brito,Jornalista - Zero Hora, 29/11/2010

Na linguagem da favela, “tá tudo dominado”. É o que se pode dizer dos últimos dias nos morros cariocas.

– Finalmente – dirão alguns mais apressados.

Imaginando que a guerra tivesse acabado com a retomada da Cruzeiro e o cerco decisivo ao Alemão, pode haver alguém mais entusiasmado com os resultados que o Estado alcançou ao buscar de volta os espaços que sua omissão entregara ao narcotráfico.

Ainda falta muita coisa até confirmar-se a pacificação pretendida pelos projetos de segurança pública com cidadania. O Rio chega lá, com certeza. Tudo se encaminha para o sucesso da estratégia traçada há três anos, quando carros de combate (urutus e caveirões) entraram nas batalhas travadas contra o crime nas grandes avenidas, palco dos incêndios de ônibus e automóveis, como nas vielas onde vivem as comunidades acuadas pelos traficantes. Repetia-se o que em 2003 já ocorrera no Carnaval. O Exército foi às ruas para impor respeito. Agora, começou pela Marinha, que tem a cara do Rio, é a mais carioca das corporações militares, especialmente os fuzileiros navais com seus equipamentos pesados e suficientes para passar por cima do que atravessarem diante deles.

Mudou a indecisão quanto ao papel constitucional das Forças Armadas, que sempre tiveram prevista a missão que agora cumprem. O Brasil está unido ao Rio e as forças federais são a garantia disso.

O que mudou, mais ainda, foi a atitude da população daquelas regiões. Quem antes dava cobertura ao traficante agora alcança um copo d’água ao soldado do Bope que sobe a colina para arrancar bandido da toca. Dá mesmo para se acreditar que, no morro, está bem resolvida a questão. Falta ainda vencer em duas frentes maiores e mais distantes: a selva e o mar.

Ainda é preciso agir com mais eficiência nas matas de nossas fronteiras com países produtores de maconha e cocaína, por onde também passam fuzis, metralhadoras e explosivos. É necessário desarmar os soldados do tráfico no Rio, mas tem a mesma importância o combate ao contrabando de armas junto às fontes fornecedoras, com projetos que envolvam países vizinhos e, necessariamente, nossas Forças Armadas.

Na Guanabara, tem mais barcos de bandidos carregados de armas proibidas que peixinhos no fundo do mar.

É a única explicação para tanto armamento e tanta droga em uma cidade que não fabrica uma pistola e nem planta um pé de coca.

O cenário é múltiplo: morro, selva e mar. Os especialistas dirão se o enfrentamento deve ser de uma vez, atacando-se as três frentes ao mesmo tempo, ou se uma escalada será o mais indicado. A realidade agora se antecipa ao próximo roteiro do cinema. Tropa de Elite 3 está em cartaz. O mundo inteiro está assistindo, nas telas dos computadores e da TV, no rádio, nos jornais e nas revistas.

COMBATE AO TERROR

Combate ao terror, por Renato Silvano Pulz, Professor universitário, Zero Hora, 29/1/2010

A violência nas cidades não é novidade, há muito se debate o assunto. Portanto, não pretendo chover no molhado, discorrendo sobre as consequências da desigualdade social e as suas entranhas. Nós, brasileiros, já nos acostumamos com isto, e neste ponto, sobre estarmos acostumados, é que surge a questão. O fenômeno das favelas cariocas e da violência gerada pelo tráfico é uma triste realidade há décadas, mas por interesses ou pela falta destes, esta realidade persiste. Assistimos no cinema e na televisão ao culto ao bandido-herói, dançamos músicas que incitam a violência, compramos produtos piratas, rádios, pneus e carros clonados na “robauto”, e por fim usamos as drogas que o traficante oferece. Ou seja, estamos de mãos dadas nesta ciranda.

A falta do Estado nas favelas permitiu o surgimento de um poder paralelo, o poder do tráfico de drogas. Onde não tinha escola, saúde, segurança, um mínimo de organização social, se tornou um terreno fértil para o florescimento da lei do mais forte, um mundo à parte com um código de ética e valores próprios. O Estado abandonou à própria sorte até as pessoas honestas que viviam à margem da sociedade. Somos todos reféns do mesmo inimigo.

Assistimos no Rio a um cenário digno de guerra civil, batalhas travadas e um saldo de destruição de uma guerra que se arrastava com a complacência das instituições e da sociedade, à custa de sangue e sacrifício. Mas isto parecia não ser suficiente para macular a imagem da Cidade Maravilhosa, do Carnaval, do paraíso tropical da garota de Ipanema. O que se via era um mercado fora da lei, próspero, lucrativo, inescrupuloso e ávido por consumidores dispostos a vender sua própria alma.

Não devemos nos surpreender com os últimos acontecimentos, pois é de se supor que um reino não entregue seus domínios sem luta. Este é o preço que pagaremos pela morosidade das decisões políticas e da inércia e conivência da população. Cidadãos tendo sua liberdade tolhida, seus carros incendiados e casas depredadas, inocentes atingidos por tiros. O que presenciamos agora pode representar uma mudança histórica, mas a história das guerras nos revela que os ventos sopram na direção de interesses nem sempre explícitos. Resta-nos saber até quando estes esforços, um verdadeiro combate ao terror, serão eficientes. Sabemos que é necessário, além da força policial, que outras medidas sejam realizadas, como uma política antidrogas, com investimentos nas áreas da saúde e educação, o combate ao tráfico de armas, mas, antes de tudo, que a sociedade entenda que o ato de consumir a droga é a pólvora dentro do barril.

O GLAMOUR DOS CHEFES DO TRÁFICO

Crianças brincam na piscina do Chefão do tráfico após a ação policial.

O glamour abandonado. Piscinas personalizadas e móveis de luxo dão a dimensão do estilo de vida dos bandidos - RODRIGO MÜZELL | Enviado Especial/Rio, Zero Hora, 29/11/2010

No terraço da casa, uma piscina com a inicial do traficante e uma churrasqueira com azulejos que imitam o calçadão de Copacabana, além da vista panorâmica para belos morros do Rio e para o Estádio Engenhão.

A casa do traficante Gão, descoberta vazia pelos policiais no Complexo do Alemão, foi um dos resultados da ocupação do reduto criminoso na zona norte carioca. Luxo e ostentação, comparados com a simplicidade da vizinhança, estiveram visíveis em outra casa de luxo, a de Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, chefe do tráfico no Morro do Alemão.

O imóvel de quatro andares, todo com piso de porcelanato e equipado com aparelhos de ar-condicionado e TVs de LCD nos cômodos, também contava com piscina e banheira de hidromassagem.

Mais pompa e exibicionismo eram visíveis na cozinha – equipada com eletrodomésticos em aço escovado, mesas com tampo de vidro e passa-pratos giratórios – e na sala, decorada com teto rebaixado e luzes indiretas.

O quarto preparado para os filhos do traficante tinha um painel do cantor Justin Bieber, ídolo pop adolescente. De acordo com a polícia, antes de deixar o local, o traficante quebrou parte do teto e paredes. Segundo os agentes, a desconfiança é que houvesse drogas, armas e dinheiro escondidos.

Mais do que expor o modo de vida dos barões do tráfico, a tarde no Complexo do Alemão foi de mostrar os resultados do maior golpe no tráfico da história do Rio. Até o fim da noite de ontem, toneladas de drogas e dezenas de armas de vários calibres, incluindo morteiros e modernos fuzis de assalto, tinham sido apreendidas.

Jornalistas com câmeras profissionais e moradores com celulares se acotovelavam para registrar a chegada de camburões abarrotados do butim resultante da guerra ao tráfico.

– Isso aqui dava para garantir meses de armas novas para a gente. Era só levar, registrar e passar para as tropas – disse um dos policiais que fazia a operação na comunidade de Nova Brasília, morro comandado por Gão.

Policiais militares subiram as vielas de Nova Brasília com cautela, sempre em grupos. Vistoriaram com fuzil e pistola cada esquina e janela aberta e pediram explicações a cada comportamento suspeito dos moradores.

Ao cruzar a porta estreita da casa de Gão, quase imperceptível na viela, os PMs encontraram oito colegas que já reuniam sobre uma das mesas da casa cerca de cem quilos de maconha, 15 quilos de cocaína, rifles de assalto, submetralhadoras, morteiros e granadas.

A TOMADA DO RIO


A TOMADA DO RIO - Era ensurdecedor e amedrontador. ZH acompanhou a operação que recuperou o Complexo do Alemão após décadas de domínio de traficantes - CID MARTINS E HUMBERTO TREZZI | Enviados Especiais/Rio, Zero Hora, 29/11/2010

Foi sob fogo cerrado que a lei voltou a reinar, ontem, num território que há mais de duas décadas pertencia ao crime. Policiais civis, militares, federais, fuzileiros navais e soldados do Exército conseguiram penetrar na maior e mais importante fortaleza do tráfico no Rio.

Uma tempestade de balas jorrou do alto das 16 favelas do Complexo do Alemão sobre as cabeças dos representantes da lei. Isso não impediu que, como se fossem membros de um só organismo, mais de 2,6 mil policiais avançassem de forma precisa e coordenada pelas principais vias dessas comunidades situadas na Zona Norte carioca. A ação não foi sem sangue – pelo menos dois traficantes morreram e outros dois ficaram feridos – mas foi muito menos traumática do que a cúpula policial e militar temia. ZH subiu um dos morros junto com os policiais e descreve aqui a operação, cujo ápice foi o hasteamento da bandeira do Brasil em um lugar antes dominado pelo tráfico.

A tomada dos morros mais hostis ao poder público no Rio começou com uma chuva de projéteis ao amanhecer. Após passarem a noite em vigília na entrada da favela, policiais federais e soldados do Exército reforçavam o contingente em torno do Morro do Alemão, quando traficantes começaram a disparar a esmo contra o asfalto. Foram pelo menos 20 tiros, fazendo militares derrubar o capacete e os pentes de armas na corrida. Em segundos, eles começaram a devolver os tiros. O piso ao lado de uma padaria ficou forrado de cápsulas calibre 7.62mm dos fuzis FAL do Exército, até que os militares conseguiram conter os agressores.

O ataque aos traficantes encastelados nas 16 favelas começou pelo alto, quando faltavam dois minutos para as 8h. Um helicóptero Huey da Polícia Civil, blindado, deu um voo rasante sobre a favela da Grota e desfechou centenas de tiros de metralhadora de cinturão (antiaérea) sobre as lajes onde se empoleiravam os bandidos. O som era ensurdecedor e amedrontador. Populares se abaixavam enquanto os atiradores do helicóptero faziam seu trabalho de “amaciamento” do terreno e abalo nos ânimos dos criminosos.

Veio então o assalto por terra. Feito uma serpente sobre rodas, dezenas de viaturas da Polícia Civil saíram da Estrada de Itararé, engrenaram uma segunda marcha e subiram cantando pneus a lomba que dá acesso à Favela da Grota, a Rua Joaquim de Queiróz. Tiveram de desviar de um trilho de trem fincado bem no meio do asfalto pelos traficantes. Desceram dos carros de arma em punho. Tiros espoucavam de todo o lado, e os policiais continuavam rumo ao topo, se esgueirando, verdadeiro formigueiro em armas.

Os agentes vestiam uma miscelânea de roupas. Além do tradicional preto, alguns usavam chapéus camuflados, outros toucas ninja que cobrem todo o rosto. Temiam futura vingança dos bandidos, caso fossem reconhecidos.

A maioria das equipes de delegacia entrou nas favelas guiada por um X-9 (alcaguete). São criminosos que trocaram de lado. Zero Hora viu dois deles em ação. Estavam de capuz, bermuda, tênis e óculos escuros, para evitar identificação. Apontavam com o dedo para as bocas-de-fumo, casas de parentes de traficantes, bares onde é receptada mercadoria. Os policiais esfregavam as mãos, de contentes. Um dos informantes portava uma pistola. Disse que ganhou para sua defesa pessoal...

Na subida da Grota, agentes do Core (Coordenadoria de Recursos Especiais, a tropa de elite da Polícia Civil fluminense) ganharam do X-9 um presente: a dica sobre a casa de um dos traficantes do morro. Ali estavam guardadas, ostensivamente, quatro motos e dois automóveis de luxo (um Ômega e um Corolla). Muito para alguém que vive na favela, comemoram os policiais, que arrombaram a garagem, fizeram ligação direta e desceram o morro com os veículos, apreendidos para vistoria.

O delegado Mário Mendonça, da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis, comandou uma busca casa a casa, beco a beco. Usava pés de cabra para abrir prédios abandonados. O símbolo CV está pintado por tudo e serviu de alvo.

Às 10h, com calor de 30ºC, os policiais civis chegaram ao topo da Grota. Tiros começaram a estourar de todos os lados. Os agentes e os repórteres que os acompanhavam se jogaram para os lados, se esgueiraram pelos becos, se protegeram de qualquer vão que possa oferecer visão para o atirador misterioso. Alguns policiais apontaram os fuzis para onde supunham terem vindo os tiros e revidaram. O som da metralha ecoou pelos becos, assustador, permeado pelo cheiro de pólvora e pelos gritos de alerta. Os poucos moradores que tinham se arriscado a sair para comprar pão ou leite fugiram, gritando, desesperados para sair daquele inferno. Assim como começou, o tiroteio terminou. Não se sabe com certeza de onde vieram os disparos. Em seguida, em cima de uma laje, os policiais encontraram uma túnica militar abandonada. Possivelmente, do franco-atirador que tentava intimidá-los.

O avanço continuou, por cinco quilômetros de ruelas fedendo a urina, ladeiras e sustos. Os policiais toparam com os bens largados pelos traficantes. Motos Kawasaki Ninja, BMW... um laboratório de cocaína, com balança ainda cheirando a produtos químicos... coldres de armas... 10 quilos de maconha dentro de um bar abandonado. Quatro suspeitos sem documentos foram detidos e interrogados, aos gritos.

Por volta das 11h, um caveirão (veículo blindado) da Polícia Civil tentou vencer uma ladeira para auxiliar os agentes. Não conseguiu. Uma barricada formada por trilhos, blocos de cimento e lixo impediu. Os policiais se conformam. Tinham acabado de encontrar colegas da PF e da PM, que avançavam pelos outros lados. A sensação de vitória pairava no ar, depois de retomarem o território que, até aquele momento, era dominado por quase 600 traficantes armados.

Tabuleiro da asfixia ao tráfico

De uma ofensiva que colocou blindados a derrubar barricadas na Vila Cruzeiro e centenas de traficantes para correr de uma favela a outra, a ação na zona norte do Rio de Janeiro evoluiu, ontem, para um cuidadoso pente-fino. A fim de evitar confrontos em uma área em que vivem mais de 100 mil cariocas, 2,6 mil homens entre integrantes das Forças Armadas e policiais civis, militares e federais optaram por vigiar saídas e ocupar o Complexo do Alemão vasculhando cada uma das 30 mil residências. A ocupação se encerrou sem um temido banho de sangue, mas as buscas por centenas de traficantes seguem vielas adentro.

Esperança na caixa de fósforos


O desabafo dos moradores das favelas do Rio que foram libertadas do tráfico tem aparecido das mais variadas formas: recorde de telefonemas para o Disque-Denúncia, comemorações com os policiais, poses para fotos com as tropas. Chamou a atenção, entre esses casos, uma moradora da Vila Cruzeiro que, sem se identificar, entregou na manhã de sábado à repórter Susana Naspolini, da TV Globo, uma caixa de fósforos que continha uma carta. Escrito a mão, o texto agradece às forças de segurança por terem libertado a favela do domínio dos traficantes. A autora encadeia versos do Hino da Proclamação da República, popularizado pela escola de samba Imperatriz Leopoldinense: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre todos nós”. A jornalista Carla Vilhena leu o material no ar durante o Jornal Nacional daquela noite. Aos policiais, a autora se refere como “guerreiros” e “heróis”.

De olho na operação inédita

A imprensa internacional acompanhou ontem a “conquista” do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Os principais sites internacionais chamaram a atenção para a ação sem precedentes e citaram as imagens de televisão que mostraram a entrada de tanques no Complexo. De acordo com a CNN, a polícia entrou em um “virtualmente impenetrável labirinto de favelas”, em busca de líderes do tráfico de drogas. O site do jornal espanhol El País publicou uma análise da situação, mostrando “o que está por trás dessa guerra”. “Esse novembro negro pode ser também o mês em que o Brasil começou a vencer o crime”, descreve o repórter Juan Arias, comentando que há talvez um excesso de otimismo entre a imprensa nacional. “Rio, e em parte o Brasil, estava tristemente acostumado ao fato de que as grandes cidades estivessem sob o controle dos traficantes de drogas que impunham suas leis com a conivência de policiais corruptos, advogados de presos perigosos, juízes e políticos que se servem dos traficantes para conservar seu poder local e enriquecer”, publicou o El País. O jornal britânico The Guardian cita que os traficantes deixaram para trás, na fuga, luxuosas mansões com piscinas e sauna.

A QUEBRA DE DUAS DÉCADAS DE TOLERÂNCIA

GUERRA DO RIO. O purgatório chega ao fim - MARCELO RECH - Zero Hora, 29/11/2010

O Rio e, por extensão, o Brasil viveram um hiato de tolerância ao crime que perdurou por quase três décadas delimitadas por dois símbolos. Um destes símbolos pôde ser aplaudido ontem: o hasteamento das bandeiras do Brasil e do Estado do Rio no topo do enclave do Alemão, a ex-república livre do tráfico carioca. O gesto materializou uma vitória da sociedade sobre os criminosos. Foi um momento de virada, tanto quanto a bandeira dos EUA hasteada no topo do Monte Suribachi, na ilha de Iwo Jima, em 1945, representou o instante no qual a maré da guerra se virou decisivamente contra o Japão.

O outro símbolo deste hiato, aquele que marcou o início da rendição ao crime, pode ser identificado há 29 anos, o momento em que morar no Rio deixou de ser o sonho dos brasileiros para se transformar em risco de vida. Em 1981, no fim do regime militar, a Secretaria da Segurança do Rio era ocupada pelo general Waldyr Munis, que nomeara um coronel do Exército, Nilton de Albuquerque Cerqueira, para o comando da PM. Oficial que liderara em 1971 a caça ao guerrilheiro Carlos Lamarca, Cerqueira fez o que se esperava dele: começou a punir policiais corruptos e a prender às mancheias os fora-da-lei, bicheiros e traficantes, inclusive.

Incomodados, os bicheiros pressionaram o governo do Estado. O presidente-general João Figueiredo, que avalizara Cerqueira, concordou com sua destituição. Ativistas de esquerda, que execravam Cerqueira pela morte de Lamarca, celebraram a demissão. Nascia ali a conjunção que levaria à explosão da criminalidade. Vistas grossas para a contravenção e o tráfico, rejeição ao poder repressivo, sobretudo o fardado, e a associação de políticos com criminosos se somaram ao glamour com que o consumo de drogas e a delinquência passaram a ser encarados pela Zona Sul para formar o coquetel do desastre.

Dali em diante, naquele início da década de 80, abriram-se as comportas do inferno para os cariocas. O populismo legado pelo governador Chagas Freitas e irrigado pelo governo de Leonel Brizola fez do Rio a cidade maravilhosa da delinquência: policiais foram proibidos de subir os morros e a corrupção se espalhou como um câncer a corroer o sistema de segurança fluminense. O tráfico assumiu um poder paralelo no Estado.

A demissão de Cerqueira tinha sido um sinal claro: havia limites para o combate ao crime no Rio e quem o ultrapassasse teria sua cabeça a prêmio. Já general da reserva, Cerqueira retornaria ao governo quase 15 anos depois, como secretário da Segurança, mas seus métodos militares já não faziam efeito: o crime tinha ganhado raízes tão profundas que não bastavam blitze nas avenidas e intervenções esporádicas e violentas nas favelas. Era preciso outra estratégia.

Para que caveirões subindo morros e bandeiras hasteadas por policiais fossem aplaudidos, houve uma combinação de novos ingredientes, a começar pelo fato de os governos federal e estadual terem afinal se dado conta de que repressão ao crime não é uma ação autoritária, mas uma imposição da democracia, e que a vitória dos homens de bem contra os bandidos é um manancial de votos bem mais generoso que o apoio eleitoral de contraventores. O resultado concreto desta convicção foram as UPPs, unidades de polícia pacificadora, uma excepcional iniciativa que só poderia dar certo se o populismo e a tolerância ao crime caíssem em desgraça.

Não deve se desprezar, porém, três outros fatores simbólicos para o Rio se insurgir contra a criminalidade e fazer desta a semana em que o Brasil, assim como domou a inflação, passou a crer que também pode reverter a criminalidade. Os dois fatores mais visíveis são a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O país e, em especial, o Rio têm a meta de não envergonhar gerações e gerações de brasileiros e, do mesmo modo que uma empresa em dificuldades, se uniu em torno de um objetivo na busca da salvação. Varrer o poder paralelo do crime, e fazer as coisas entrarem nos eixos, serão os maiores legados possíveis da Copa e dos Jogos Olimpícos. O terceiro fator está nas forças liberadas por um filme e sua sequência: a torcida escancarada dos brasileiros de todas as classes pelo capitão Nascimento deixou claro o fim da era populista e o início de um tempo em que os homens de bem não têm mais vergonha de proclamarem de que lado estão. O purgatório finalmente está chegando ao fim.

Tabuleiro da asfixia ao tráfico

De uma ofensiva que colocou blindados a derrubar barricadas na Vila Cruzeiro e centenas de traficantes para correr de uma favela a outra, a ação na zona norte do Rio de Janeiro evoluiu, ontem, para um cuidadoso pente-fino.

A fim de evitar confrontos em uma área em que vivem mais de 100 mil cariocas, 2,6 mil homens entre integrantes das Forças Armadas e policiais civis, militares e federais optaram por vigiar saídas e ocupar o Complexo do Alemão vasculhando cada uma das 30 mil residências. A ocupação se encerrou sem um temido banho de sangue, mas as buscas por centenas de traficantes seguem vielas adentro.

A GUERRA DO RIO - REAÇÃO DOS CARIOCAS



Força, Rio! - A reação dos cariocas: a população dá apoio às ações do governo, que enfrentou com força e inteligência os ataques do tráfico. O crime organizado não se conforma com o sucesso das Unidades de Polícia Pacificadora - Francisco Alves Filho e Wilson Aquino - Revista Isto É, N° Edição: 2142, 26.Nov.10 - 21:00. Atualizado em 29.Nov.10 - 09:30.

Com um tiro certeiro de cidadania e autoridade, o governo do Rio de Janeiro conseguiu finalmente alvejar um inimigo que há décadas aterroriza a população do Estado. O tiro tem nome e sigla: Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, projeto de policiamento comunitário que já resgatou nos últimos dois anos mais de 300 mil favelados do mundo de terror instaurado historicamente pelos traficantes de drogas. O inimigo que foi gravemente ferido é o crime organizado. Ao instalar as UPPs em favelas, o governador Sérgio Cabral rompeu com a ordem até então vigente nas comunidades carentes: a violência dos bandidos é que determinava o que podia ou não ser feito. As armas eram a lei e o crime organizado detinha o controle territorial. Isso acabou nas 12 comunidades pacificadas até agora, atingindo diretamente a receita do narcotráfico. Na semana passada, a reação veio forte e orquestrada. Do domingo 21 até a quinta-feira 25, o Rio viveu dias de pânico. Através de arrastões e atentados que atingiram sobretudo o patrimônio privado e público, com carros particulares e ônibus urbanos queimados (cerca de 100), cabines da Polícia Militar metralhadas (três PMs feridos até a tarde da sexta-feira 26) e falsas ameaças de bombas, os criminosos impuseram um onda de terror sobre toda a população, no momento em que a Cidade Maravilhosa se prepara para eventos como a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

O carioca foi pego de surpresa, mas, ao contrário do que ocorre há décadas, desta vez o governo estava preparado. Tinha a sua disposição um serviço de inteligência capaz de se antecipar e uma política de enfrentamento estrategicamente definida, em que não cabe negociação com o tráfico. “Já esperávamos que os criminosos reagissem às UPPs e isso é a prova de que estamos no caminho certo”, diz o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame. Um dos primeiros sinais captados pelo Estado de que o tráfico partiria para ações terroristas veio com a informação de que estava se consumando a união entre duas facções criminosas: Comando Vermelho (CV) e Amigo dos Amigos (ADA). Dias antes do início dos atentados, o Serviço de Inteligência instalado no terceiro andar do edifício da Secretaria de Segurança havia detectado que uma leva de marginais da facção Amigo dos Amigos se deslocara até o Complexo do Alemão, base do Comando Vermelho. Antes numa relação de gato e rato, agora essas duas facções se tornavam carne e unha para sangrar a população. O Serviço de Inteligência descobriu que os visitantes pernoitaram no novo endereço, ou seja, uma aliança estava se formando. Claro que ela iria agir militarmente para forçar o governo a uma negociação política que restringisse a presença de UPPs nos morros. Não funcionou.

Na quinta-feira o governo reagiu. Com o apoio logístico e de nove blindados da Marinha, o Bope subiu as estreitas ruas da Vila Cruzeiro, no complexo do Alemão, uma região controlada pelo tráfico e onde estava instalado o QG da bandidagem que desde o domingo barbarizava o Rio. Capitães Nascimento – não o do filme mas aqueles que dão e levam tiro de verdade – eram aplaudidos por onde passavam, numa rara manifestação de apoio da população às suas forças policiais. Bandido, quando assalta, diz à sua vítima: “Perdeu!” Dessa vez, foi como se os cariocas, ao apoiarem francamente o governo (só na quinta-feira foram mais de mil ligações ao disque-denúncia, recorde absoluto desde a sua criação em 1995), falassem em coro: “Vocês perderam!”. Diante do avanço policial, os traficantes fortemente armados fugiram desesperados como quem foge de um tsunami – no caso, um tsunami de autoridade e cidadania, que começou a mudar as regras do jogo imposto nos morros cariocas há mais de três décadas.

Assim como a população do Rio foi surpreendida pelos ataques promovidos covardemente pelo tráfico, os traficantes também foram pegos de surpresa pela reação policial, que tinha conhecimento prévio do que estava para ocorrer. “Eu estou aqui aguardando a UPP: a bala vai comer sério”, dizia uma carta ameaçadora apreendida no Presídio Federal de Catanduvas, no Paraná, onde chefões do narcotráfico cumprem pena e para o qual foram sumariamente enviados todos os 192 presos na última semana, sob a acusação de promoverem os atentados. Se o objetivo da bandidagem era provocar uma negociação, o tiro saiu pela culatra. “Não tem negociação. Acordo com traficante é cadeia”, disse à ISTOÉ o governador Sérgio Cabral. Esse está sendo de fato o destino dos narcotraficantes e, para isso, o governo vale-se sobretudo de seu Serviço de Inteligência. Munido de 15 computadores destinados exclusivamente a interceptações telefônicas e de outros dois que armazenam mil horas de vídeo em alta definição e um milhão de diálogos gravados, o Serviço de Inteligência tem hoje a capacidade de cruzar dados com precisão, descobrindo novos traficantes e suas andanças pelos morros.

No campo das diversas táticas que formatam tal estratégia, pontualmente na semana passada foi montado um Centro de Gestão de Crise no 22º Batalhão da PM, no Complexo da Maré, na zona norte. Na segunda-feira 22 um grupo de 12 autoridades passou a traçar os planos de ação naquela unidade. Após 48 horas e com o comandante-geral da PM, Mário Sérgio Duarte, e o chefe de Polícia Civil, Allan Turnowski, sentados à mesa de decisões, uma tonelada de possibilidades de combate aos atentados foi pesada e ponderada. Restou uma na balança: o pedido de apoio à Marinha. A ideia nasceu depois da análise do material enviado pelo Serviço de Inteligência e foi levada ao secretário Beltrame. Depois de uma reunião de quatro horas, o plano foi apresentado ao governador. Ele o chancelou. Por volta da meia-noite da quarta-feira 24, um ofício foi enviado ao Comando da Marinha para propor oficialmente a parceria e, no dia seguinte, nove blindados dos Fuzileiros Navais transportaram centenas de policiais para dentro da Vila Cruzeiro – a mesma onde, em 2002, foi incinerado vivo por traficantes o jornalista Tim Lopes.

A invasão e a ocupação da Vila Cruzeiro foram o ápice da reação do governo estadual milimetricamente planificada e harmonicamente casada com o governo federal e o Poder Judiciário. Primeiro, a transferência de presos para isolar os líderes criminosos – isso se chama cortar a cabeça da cobra, ou seja, o corpo do réptil continua se movendo e se debatendo, mas ele já não enxerga. Depois, a segunda providência foi mandar na hora os novos presos também para presídios federais – se ficassem no Estado, fatalmente haveria rebeliões nas cadeias. Finalmente, chegou-se à etapa de tomar o quartel-general do terror. Todo esse conjunto de ações levou 96 horas, a contar do domingo, quando os atentados começaram a se disseminar. Nesse dia o aposentado Paulo César Albuquerque, 64 anos, sua mulher, Maria de Lourdes, 53, e seu neto Henrique, 10, passavam pela Linha Vermelha quando perceberam uma estranha movimentação e intuíram o que estava por acontecer. Mulher e marido imediatamente retiraram de seus dedos as alianças que os acompanham há um quarto de século e as esconderam sob um dos bancos do carro. “Um cara com arma na mão estava na pista e disse que era assalto. Havia três outros homens assaltando pessoas”, diz Albuquerque. Eles foram retirados do carro e assistiram, perplexos e indefesos, aos bandidos atearem fogo ao automóvel. “Assim que o fogo foi controlado, voltamos para ver o que tinha sobrado e achei a bolsa e as alianças. A minha estava inteira, mas a dele...”, diz a esposa, mostrando o anel derretido do marido. Em outro ponto da cidade, na Tijuca, a corretora de seguros Daniele Toledo, 36 anos, foi outra a ser atingida pelos marginais. Quando se preparava para dormir, ouviu gritos: “Dani, estão tocando fogo no seu carro.” Ao sair à janela viu uma garrafa pet em chamas sobre a mala traseira de seu Clio Renault. “Vesti um roupão, peguei um balde com água e fui para a rua. Quando cheguei, vi dois rapazes numa motocicleta e ouvi quando um deles falou para a vizinha que estava na janela: agora pode chamar os bombeiros.” A sensação de desamparo se apoderou de Daniele, ela sentou-se no chão da cozinha de sua casa e chorou, chorou, chorou: “Estou à base de calmantes, entrei em paranoia.”

“É muito importante que o ambiente físico seja normalizado o mais rapidamente possível”, diz o psicólogo Christian Kristensen, pesquisador do Núcleo de Estudos em Trauma e Estresse da PUC do Rio Grande do Sul. “As pessoas ficam com sentimento de vulnerabilidade”, diz a psicóloga carioca Marcele de Carvalho, do Centro Psicológico de Controle do Stress. Para o sociólogo Renato Lima, secretário-geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Rio sofre com um esquema tático de guerrilha que foi adotado pelos traficantes. Diz ele: “O que está acontecendo são reações esperadas. Diante de uma restrição de seus territórios, o crime reage para provocar o pânico e desestabilizar a polícia, numa tentativa clara de criar acordos.” Ele acredita que o governo deva continuar a investir pesado na análise de informações como uma medida de prevenção ao crime organizado: “O Estado não pode retroceder.” Era justamente isso que tinham em mente os comandantes da polícia quando planejaram a maior operação da história da polícia carioca, a tomada da Vila Cruzeiro, com um contingente de 500 homens. Ao fim do dia, a comunidade, tida como reduto intocável do tráfico, voltou para as mãos do Estado. “Pertence a quem mora nela”, disse o delegado Rodrigo de Oliveira, diretor da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), a unidade de elite da Polícia Civil.

A Vila Cruzeiro se transformara em QG dos bandidos porque uma infinidade de traficantes expulsos dos morros nos quais foram instaladas UPPs se refugiaram no Complexo do Alemão (engloba cerca de 40 favelas). Nele, estima-se que pelo menos 600 bandidos viviam armados até os dentes – como são aproximadamente 400 mil moradores, subtraiam-se esses 600 e temos a esmagadora maioria da população local que sacoleja no trem para ir e voltar do trabalho honesto. O apoio da Marinha foi determinante. Ao lado dos policiais militares, os fuzileiros navais apontavam armas na direção do morro e também eram eles que guiavam os blindados especiais M113, semelhantes aos vistos na guerra do Iraque. Enquanto o barulho dos tiros indicava que uma guerra era travada no morro, no asfalto o clima era de curiosidade, perplexidade e medo – ou tudo junto. Lojas, bancos, postos de gasolina e lanchonetes foram fechados. Nas ruas poucos automóveis circulavam e o que se via era um desfile de tanques, carros de combate e blindados da polícia – os já conhecidos “caveirões”. Enquanto algumas pessoas corriam apavoradas tentando se proteger do fogo cruzado, outras caminhavam em direção aos pontos de concentração dos policiais e fuzileiros como se fossem assistir a um espetáculo. “Meu filho pediu para ver o que estava acontecendo e eu o trouxe”, contou com tranquilidade a dona de casa Rachel Nigri, 45 anos, ao lado do pequeno Guilherme, 8. Ela mora na região há mais de três décadas e se diz acostumada aos conflitos entre traficantes e policiais. “Estou torcendo pela implantação de uma UPP na comunidade.” Ao longo do tempo em que durou o tiroteio, a estudante Aline da Silva, 16 anos, filmou toda a ação com o celular. “Moro na favela há cinco anos e a presença da Marinha é uma boa novidade”, disse ela.

Não foi somente a parceria entre polícia e Forças Armadas que marcou a reação das autoridades. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva atendeu prontamente aos pedidos do governador Sérgio Cabral: a Polícia Federal cedeu 300 homens e as Forças Armadas, outros 800 que na sexta-feira cercaram o complexo do Alemão, para onde haviam fugido os traficantes da Vila Cruzeiro. “Os traficantes faziam as barbaridades e corriam para os seus redutos, protegidos por armas. É importante prender essas pessoas, mas o vital é retirar-lhes o chão. Ficam vulneráveis quando rompemos o muro que os protege”, diz o secretário Beltrame. “O Estado está se afirmando de uma maneira que me parece adequada, o Rio está mostrando que é forte”, diz o procurador Denílson Feitoza. “A presença da polícia nas comunidades é muito importante, porque cria a base para políticas sociais.” Mesmo após a enérgica reação policial, os bandidos insistiram em atentados na sexta-feira, fato que era esperado pelo próprio Serviço de Inteligência e pelo Centro de Gestão de Crise. Da mesma forma, também era aguardado que eles começassem a demonstrar certo grau de desarticulação. A socióloga e ex-diretora da Secretaria Nacional de Segurança Pública Jacqueline Muniz acredita que as ações do governo são corretas na medida em que ele conta com a capacidade de saber o que o inimigo está planejando. “Os atos de terrorismo se beneficiam da surpresa e aleatoriedade. O poder público tem de reagir com previsibilidade e regularidade de ações”, diz ela. A rigor, o Estado antecipar-se às ações do terror ou “fingir taticamente” que não sabe que elas vão acontecer para trazer a seu favor o “fator surpresa” é vital para a eficácia da repressão. O governo está fazendo a sua parte e a população o aplaude. Tem, no entanto, de ir além do bater palmas. Não é nada raro que pessoas de classe média e classe média alta consumam drogas e considerem que o dinheiro que dão em troca seja diferente, por exemplo, do dinheiro que o favelado ou o bandidos usam para se drogar. Ilusão. Ou seja: é como se falassem, valendo-se simbolicamente de uma redoma de assepsia social, “eu uso drogas de forma recreativa e nada tenho a ver com o financiamento do narcotráfico”. Tem a ver, sim. Vale, portanto, refletir no que diz taxativamente o secretário Beltrame: “Quem consome drogas financia o tráfico e joga contra os nossos objetivos.”



COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Imperdível. Nas bancas a reportagem completa da Revista Isto É com muitas fotos. Após 20 anos de submissão, a sociedade brasileira reage e está vencendo a guerra do Rio. Falta o Congresso fazer a sua parte já que foi o único poder que esteve ausente nesta guerra. O Brasil precisa de leis mais fortes contra o crime e necessita de um sistema integrado de ordem pública envolvendo:

- uma justiça mais próxima, coativa, célere e comprometida com as questões de ordem pública;
- polícias estaduais no ciclo completo, valorizadas e bem pagas como são as federais;
- investimentos em armas, coletes de segurança, capacetes para operações especiais, equipamentos, tecnologia e veículos blindados;
- guardas prisionais uniformizados, bem pagos e capacitados para administrar e fazer a segurança de presídios de acordo com níveis de segurança;
- construção de presídios de segurança mínima com oficinas de trabalho em todos os municípios do Brasil.
- criação de leis emergenciais contra atentados e terrorismo autorizando a participação e a ação efetiva das forças armadas em apoio às unidades federativas;
- criação do código de postura na execução penal e trabalho prisional obrigatório;
- departamento de monitoramento de apenados e de benefícios penais;
- promotorias criminais dentro das corregedorias e especializadas no combate ás improbidades, corrupção e lavagem de dinheiro;
- polícia nacional para o policiamento ostensivo permanente das fronteiras;
- defensorias atuantes e próximas dos delitos para oferecer a defesa imediata, evitar abusos de autoridade e crimes ocntra direitos humanos, inclusive dentro dos presídios;
- saude com instalação de postos públicos para tratamento das dependências e desvios mentais que podem levar ao crime.
- educação voltada para a formação de cidadãos preparados para o civismo, cidadania e sobrevivência no mercado de trabalho, integrando o ensino científico com o artístico, técnico e esportivo.
- social estimulando o trabalho das ONGS, a moradia, o saneamento básico, a alimentação farta, o lazer, as relações interpessoais, a convivência pacífica, etc.