Conheça as Mazelas que prejudicam a preservação da Ordem Pública no Brasil

CONHEÇA AS MAZELAS QUE PREJUDICAM A PRESERVAÇÃO DA ORDEM PÚBLICA NO BRASIL.

Este Blog, na linha da obra "Ordem (Justiça) e Liberdade" (PolOst, 2006), revela as causas e efeitos da insegurança pública e jurídica no Brasil e propõe uma ampla mobilização da sociedade para exigir enxugamento da constituição, fortalecimento das leis, segurança jurídica e judiciária, celeridade da justiça, reforma política, zelo do erário, execução penal digna e construção de um sistema integrado, otimizado, harmônico e eficaz de preservação da Ordem Pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, envolvendo e comprometendo instrumentos de coação, justiça e cidadania: judiciário, ministério público, forças policiais e prisionais, defensoria pública, monitoramento penal, tratamento das dependências e distúrbios mentais, educação multidisciplinar e políticas de inclusão social e profissional.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

700 MIL FAMÍLIAS EM "EXTREMA POBREZA"

Fora do radar do governo, País tem 700 mil famílias em ‘extrema pobreza’

Pente-fino promovido pelo ministério mostra que estatísticas oficiais ignoravam legião de miseráveis, que ficaram descobertas até pelos programas sociais incrementados na gestão do ex-presidente Lula


Roldão Arruda - O Estado de S.Paulo - 27/05/2012
Um ano atrás, o governo federal pôs em andamento uma operação para localizar os chamados miseráveis invisíveis do Brasil - aquelas famílias que, embora extremamente pobres, não estão sob o abrigo de programas sociais e de transferência de renda, como o Bolsa Família. Na época, baseado em dados do IBGE, o Ministério do Desenvolvimento Social estabeleceu como meta encontrar e cadastrar 800 mil famílias até 2013. Na semana passada, porém, chegou à mesa da ministra Tereza Campello, em Brasília, um número bem acima do esperado: só no primeiro ano de busca foram localizadas 700 mil famílias em situação de extrema pobreza e invisíveis.
Considerando apenas o chefe da família, isso corresponde à população de João Pessoa (PB). Se for levada em conta toda a família, com a média de quatro pessoas, é uma Salvador inteira que estava fora dos programas.

O resultado da operação, conhecida como busca ativa, também surpreende pelas características dessa população: 40% das famílias invisíveis estão em cidades com mais de 100 mil habitantes. Com o desdobramento e a análise das estatísticas, é provável que se constate que a maioria dos miseráveis invisíveis não estão nos grotões das regiões Norte e Nordeste, como quase sempre se imagina, mas na periferia dos centros urbanos.

"Estamos falando de famílias extremamente pobres que até agora não faziam parte do cadastro único do governo federal e por isso não eram vistas na sua integridade, de acordo com suas necessidades e carências", observa a ministra Tereza Campelo. "Podiam ter filhos na escola, mas não tinham acesso ao básico dos programas sociais, como o Bolsa Família, a tarifa social de energia elétrica e outras ações."

Para chegar a essas pessoas o ministério partiu do princípio de que, por algum motivo, elas não conseguiam chegar aos serviços de assistência social das prefeituras e pedir a inscrição no cadastro único. "Era preciso sair dos escritórios. Mobilizamos prefeituras, agentes de saúde, empresas de distribuição de energia elétrica", conta Tereza. "As prefeituras estão sendo remuneradas por esse trabalho."

Acidentado. Em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo, a assistente social Marisa Lima foi uma dessas agentes mobilizadas para caçar os invisíveis. Em janeiro deste ano ela estava trabalhando na Unidade Básica de Saúde Municipal do Centro, na Avenida dos Coqueiros, quando apareceu por lá Raimundo Marques Ferreira, pintor de paredes, de 52 anos.

Buscava remédios e assistência médica, rotina que segue desde 2007 quando sofreu um acidente de trabalho. Caiu num fosso de elevador e teve os movimentos motores do lado esquerdo do corpo comprometidos. Como não era registrado e a empresa fechou as portas após o acidente, ficou sem nenhum tipo de cobertura. Os laudos médicos, que guarda presos com um elástico, indicam que também sofre com depressão e problemas neurológicos.

Separado, Ferreira mora com quatro filhos num cômodo de pouco mais de 30 metros quadrados, no fundo de um quintal, na Vila Zazu, bairro pobre de Franco da Rocha. É uma casa limpa, mas úmida e escura, erguida rente a um barranco ameaçador. Na época das chuvas, Ferreira sempre é visitado pela Defesa Civil, que insiste para que abandone o lugar. "Sair para onde?", indaga. "Aqui eu não pago aluguel."

Não sabia como fazer. No centro de saúde, abordado pela assistente social, o pintor contou que "já tinha ouvido falar" do Bolsa Família, mas não sabia se tinha direito, nem como se inscrever. Hoje recebe R$ 102 por mês, que usa sobretudo para pagar as contas de água e luz e comprar alguma comida. Dois de seus filhos, com 16 e 13 anos, foram inscritos no Ação Jovem, do governo estadual, que garante R$ 80 por mês, desde que frequentem a escola.

Agora a assistência social orienta Ferreira para que obtenha uma aposentadoria por invalidez, no valor de um salário mínimo, no INSS. Se conseguir, ele quer ampliar a casa onde mora e investir em cursos de informática para os filhos menores. Ele tem o olhar triste e fala em voz baixa, com modos tão humildes que dá a impressão de assustar-se com o mundo à sua volta.

MULHERES BUSCAM RESPEITO E LIBERDADE

 
ZERO HORA, 28 de maio de 2012

MARCHA DAS VADIAS

Manifestação reuniu dezenas de pessoas ontem à tarde, em Porto Alegre - LARA ELY

 

“Minha roupa não define meu caráter.” “Meu decote não te dá direitos.” “O respeito que você me deve não é proporcional ao tamanho da minha saia.”

Portando cartazes com frases como essas, centenas de pessoas realizaram um protesto em Porto Alegre, ontem à tarde, para marcar o descontentamento com a violência contra a mulher e outras questões ligadas à liberdade, à estética, ao comportamento e à sexualidade.

Batizado de Marcha das Vadias, teve origem em Toronto, no Canadá. Foi organizado por estudantes da universidade local a partir da declaração de um policial que afirmou que o fato de as mulheres se vestirem como “vadias” poderia estimular o estupro.

Planejada por meio das redes sociais, essa é a primeira vez que a marcha ocorre de forma isolada na Capital. Além da diminuição da violência, o direito de fazer aborto com apoio do Estado e a questão salarial estão entre as bandeiras. A publicitária Maria Fernanda Geruntho Salaberry, 25 anos, explica as motivações:

– Nosso jargão é o seguinte: se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias. A mulher já passou por vários processos de evolução, como o uso da pílula contraceptiva, a possibilidade da separação legalizada, a liberdade sexual. Mas ainda falta muito, por isso precisamos nos manifestar.

A estudante de Psicologia de 23 anos Cecília Richter afirma que, embora tenha caráter feminista, o movimento não se propõe a ser o contrário do machismo, mas uma luta por igualdade.

– Reivindico o direito de usar a roupa que eu quiser sem sofrer represálias nem abusos. Quero poder voltar para casa sozinha à noite sem correr o risco de ser violentada e escutar que fui eu que não tomou os devidos cuidados.

Estudioso de movimentos de violência e professor de Sociologia da UFRGS, José Vicente Tavares entende que esse tipo de protesto é importante para democratizar a sociedade e alertar para a repressão masculina.

Violência no lar
Reportagem deste domingo mostrou que em 91% dos casos de mulheres assassinadas com violência doméstica no Estado, nos últimos três anos, a polícia havia sido informada dos riscos.

domingo, 27 de maio de 2012

O MUDO FALANTE

 
ZERO HORA 7 de maio de 2012

Flávio Tavares, Jornalista e escritor. 


O que mais me inquieta na sucessão de falcatruas, subornos e outras obscenidades do tal Carlinhos Cachoeira não são os crimes em si, nem a avalanche com que se expandiram de Goiás pelo país afora, corrompendo governos e governadores. Nem me inquieta que, a partir da roubalheira do jogo do bicho e dos bingos, ele virasse respeitável “grão senhor”, adulado por políticos e parlamentares, ouvido pela maioria dos partidos. Ou (corolário de tudo isso) que ele e os asseclas formassem grandes empresas contempladas em milionárias obras governamentais.

Esse horror é “normal” no país. Em meio às migalhas do Bolsa-Família ou às radiosas dívidas do crediário, já nem ligamos para o grande crime. Basta a preocupação com o assalto de rua e a poluição ou a seca brutal agravada pelo desmatamento constante. Se a tristeza crescer, há o futebol e a felicidade de que a Copa será aqui, como raio de luz!

Na rapina do bando de Cachoeira, é inquietante ver o escudeiro que ele tem ao lado. O ministro da Justiça dos quatro primeiros anos do governo Lula da Silva é agora seu defensor absoluto. Não atua como advogado tratando das formalidades para evitar absurdos processuais, mas como avalista do que ele fez ou faz. Antes de ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos foi presidente nacional da OAB e, como tal, conquistou o respeito geral. Agora, na CPI do Congresso, acompanhou Cachoeira em tudo. Porte altaneiro (como se defendesse Cristo ou Tiradentes), ordenou que se calasse ou cochichou ao seu ouvido as poucas frases que o mafioso repetiu como boneco de ventríloquo.

O direito à defesa é inerente à Justiça e os advogados criminais estão habituados a defender bandidos. Mas como será um ex-ministro da Justiça defendendo a quem abusou do próprio Estado? A quem subornou, corrompeu e atingiu direitos fundamentais de milhões de pessoas, ludibriadas pela máfia e afetadas, também, pelo desvio de verbas para escolas e hospitais?

No emaranhado da corrupção generalizada, pode (por ética) um ex-ministro continuar a advogar, usando na defesa do crime o que aprendeu nas entranhas do poder? Pode um ex-ministro da Justiça (que, até 2006, comandou durante quatro anos a Polícia Federal) advogar para um notório mafioso investigado pela própria Polícia Federal?

Enfronhado, como ninguém, dos labirintos policiais, conhece ele seus meandros e fragilidades. E sobre isso irá construir a defesa. Assim, defenderá o crime pelo que aprendeu, conheceu e comandou como ministro no combate ao crime? Fará a defesa do criminoso sobre as mesmas falhas e fragilidades do sistema, no qual penetrou a fundo como ministro?

Quem será o autêntico? O ministro da Justiça de ontem, na gestão Lula da Silva, que nos protegia da bandidagem e tinha poder sobre a Polícia Federal? Ou o advogado de hoje, que cochicha em público aos ouvidos do mafioso, para tentar ludibriar o que a Polícia Federal constatou?

Pode-se fingir ontem e fingir ao contrário hoje? Ou – entre o crime e a lei – há só um lado e somos autênticos apenas em um deles? Ou tudo é teatro de rua, e a empulhação está em todos os cantos do poder? E, lá, nada é nada, não há ética nem pudor, e só interessa enganar em busca de milhões?

Nisso tudo (numa ilação paradoxal), lembrei-me do cardeal dom Vicente Scherer. O que seria dele se, após deixar o Arcebispado de Porto Alegre, se dedicasse ao oposto do que pregava e, a partir do que ouviu nas confissões dos fiéis, fosse dirigir um prostíbulo?

Seria ele a figura admirada e querida que é, pela abnegação com que reergueu a Santa Casa de Misericórdia para servir ao Rio Grande inteiro? Ou seria um mudo falante?

sábado, 26 de maio de 2012

NOVOS E VELHOS ATIVISTAS

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA, professor titular de Teoria Política e diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp - O Estado de S.Paulo, 26/05/2012
 
Quanto mais se observa o mundo, a América Latina e o Brasil, mais se percebe que a nossa é uma época com pouca "cabeça" política, pouca direção. As mudanças em curso abalam a vida cotidiana, as relações sociais e o Estado, mas não têm um autor que se possa reconhecer. Apesar de haver uma revolução em marcha, nenhuma revolução propriamente política ocorre. A revolução é passiva.

Impulsionadas por essa dinâmica, as sociedades fragmentam-se, individualizam-se e perdem instituições. Tornam-se cada vez mais parecidas entre si, mas dentro delas a diferença se reproduz incessantemente.

Sem centros claros de coordenação, as partes (grupos, indivíduos, regiões) afastam-se umas das outras e seguem lógicas próprias - ainda que, paradoxalmente, tudo fique mais conectado. Uma multidão de novos sujeitos gera novos conflitos e contradições, embora não consiga interferir de fato no jogo político e redirecioná-lo em termos emancipadores. A hiperatividade da sociedade civil ocorre mais em função da necessidade de autoexpressão que da disposição para organizar consensos. O risco de fragmentação corporativista da representação política aumenta, com efeitos deletérios sobre o processo político: partidos e governos se tornam mais "dependentes" dos interesses que vicejam em seu interior, perdem potência como representantes e ficam menos ágeis para tomar decisões.

Com isso, cai a confiança das pessoas nas instituições políticas. Os próprios políticos se enredam sempre mais nos meios específicos da política, sejam eles a disputa eleitoral ou a distribuição de verbas e favores. A relação com os negócios agiganta-se. Cresce o risco de corrupção, diminui a densidade ética da política.

Todos se tornam mais preocupados em gerir recursos de poder e maximizar interesses eleitorais, deixando de agir para organizar novos consensos e consentimentos. Desajustada pelos novos termos da vida social, a política passa a produzir mais problemas que soluções. Deixa de ser o principal fator de composição social e estabelecimento de equilíbrios e consensos. Sociedades, indivíduos, grupos, nações e Estados se tornam partes soltas de um conjunto sem muita articulação sistêmica.

Mantém-se ativa, no entanto, uma expectativa social de "proteção" e operosidade estatal, sobretudo de setores marginalizados e de uma classe média que - em parte expandida pela incorporação de contingentes populacionais beneficiados por programas governamentais e em parte empobrecida pelo desemprego e por políticas de ajuste - afirma seus direitos perante o Estado. Trata-se de uma expectativa que se liga à exigência de que os governantes "decidam e façam" (o que incentiva tendências populistas e de hipertrofia do Executivo), mas se combina com uma crescente dificuldade para que se aceitem "ordens" que não nasçam de alguma modalidade de consulta ou interação. Pouco importa que os mecanismos deliberativos adotados produzam resultados precários, desde que eles sirvam para que se manifestem indignação, carências, desejos e opiniões.

Aumenta assim a disposição social para instituir uma nova "zona de ação política", menos institucional e mais individualizada, de movimentação contínua, de pressões antissistêmicas erráticas, que se tornam viáveis pelas maiores facilidades de comunicação e contato. Desponta uma nova politicidade, cujos teor e formato institucional ainda estão por ser estabelecidos.

Novas modalidades de engajamento seduzem antes de tudo os jovens, mas não se resumem a eles, pois tendem a crescer como uma espécie de paradigma da ação política. Sua característica essencial é o questionamento do ativismo tradicional, sustentado por organizações hierarquizadas, classes sociais e causas gerais. O novo ativista luta por direitos e reconhecimento, não por poder. Não sacrifica a vida pessoal em nome de uma causa coletiva ou da glória de uma organização. Não se referencia por líderes ou ideologias.

Age festivamente e sem rotinas fixas, valendo-se muitas vezes da sátira e do deboche. É multifocal, abraça várias causas simultaneamente. Sua mobilização é intermitente. Muitos atuam de maneira pragmática, profissionalizam-se como voluntários, buscam resultados mais do que confrontação sistêmica. Seu ambiente são as redes sociais, sua maior ferramenta é a conectividade.

Não há, porém, muralhas intransponíveis separando velhas e novas formas de ativismo, que se cruzam e se podem combinar de diferentes maneiras, beneficiando-se reciprocamente. Se suas agendas contêm distintas ênfases e questões, também estão repletas de temas que somente podem ser enfrentados com sucesso se se interpenetrarem e forem articulados numa plataforma de síntese política.

O novo ativismo pode ser uma importante alavanca de construção do futuro. Será isso, no entanto, na medida em que considerar o conjunto da experiência social e convergir para a reforma democrática da sociedade, do Estado e da política. Se tentar evoluir solitariamente, fechado em suas causas específicas e na busca de autoexpressão, só produzirá ruído e efervescência, perdendo em termos de efetividade.

A necessidade dessa articulação está posta pela vida. Afinal, o social que se fragmenta não desaparece como social. A dimensão coletiva da existência não se dissolve só porque a individualização se expande. Ainda continua a ser fundamental combinar ações e promover convergências. Além disso, os conflitos de classe permanecem, mesmo que as classes não estejam podendo ser atores políticos no sentido próprio do termo. As estruturas de poder, ainda que possam ter enfraquecido alguns de seus fluxos, preservam sua capacidade de emitir ordens, pressionar e coagir.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O BRASIL É UM LIXÃO?

BEATRIZ FAGUNDES, O SUL, Porto Alegre, Sexta-feira, 25 de Maio de 2012.

No ano passado, 46 toneladas de lixo hospitalar vindas dos EUA foram apreendidas no porto de Suape, em Pernambuco.

O Brasil é um lixão? Vivemos no mundo do espetáculo! Pensei nisso ao percorrer o noticiário em busca de um assunto para a coluna. Um tema pronto e fácil de desenvolver seria a comédia pornô chanchada em que se transformou a tal CPI do Cachoeira, com direito a ter um relator denominado "tchutchuca", em alguns momentos, e "tigrão" em outros. Verdades? Nenhuma. Apenas lamentáveis cenas de cérebros nebulosos.

Desistindo de me ocupar com inutilidades, destaco uma carga de 20 toneladas de lixo hospitalar, vinda da Espanha, que foi barrada pela alfândega da Receita Federal no porto de Itajaí (SC). A descoberta do lixo ocorreu durante vistoria feita nesta semana. No meio da carga, que estava em um contêiner, havia lençóis sujos. Em alguns deles, há a logomarca de um hospital espanhol. Essa é a terceira carga de lixo encontrada no porto de Itajaí em menos de oito meses. As demais vieram da Espanha e do Canadá e já foram devolvidas. No ano passado, 46 toneladas de lixo hospitalar vindas dos EUA foram apreendidas no porto de Suape (Pernambuco). O material foi devolvido em janeiro. Como a fiscalização é feita por amostragem, da para imaginar o que passa livremente. São ações de máfias.

O lucro líquido obtido pelas internacionais criminosas cresce de 30% a 40% ao ano, segundo o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Kofi Annan. O IBGF (Instituto Brasileiro Giovanni Falcone), revela que ao contrário do imaginado, os lucrativos "negócios" mafiosos não se exaurem no tráfico de drogas, armas e pessoas. Outro filão enche os bolsos das máfias e de corporações industriais aliadas do Primeiro Mundo. Trata-se do tráfico internacional de lixo, perigoso à saúde humana e ao meio ambiente. Só em 2003, o "business" do tráfico planetário de lixo rendeu 15 bilhões de euros (fonte europeia). E entre 2000 e 2002, o ganho progrediu de 10 bilhões de dólares a 12 bilhões de dólares (fonte norte-americana). Lá se vão dez anos de lucro líquido sujo e certo.

Sem cerimônia, os países industrializados e ricos do Hemisfério Norte despejam o lixo produzido nos subdesenvolvidos e pobres do Sul. Sobre o fenômeno representado pelo tráfico sem fronteiras de lixo, a ambientalista europeia Mônica Massari, em artigo intitulado "Negócios Sujos", destacou a existência de um "colonialismo ambiental". É comum, com a intermediação mafiosa, que empresas sediadas em nações industrializadas constituam, por meio de testas-de-ferro, sociedades importadoras nos países que serão usados como latrinas. Com efeito, todos os anos, os países industrializados precisam se livrar de 300 milhões de toneladas de lixo. Estima-se que o continente africano receba anualmente 50 milhões de toneladas de resíduos. O jornalista Josias Pires recomenda a leitura do extraordinário livro "Gomorra", do jornalista-filósofo italiano Roberto Saviano, que descreve o modus operandi do capitalismo contemporâneo através da máfia, organização criminosa meticulosamente estruturada.

Cada continente, cada país tem as suas máfias, elas dividem o território mundial e transacionam de tudo: armas, drogas, lixo, roupas, tênis, hotéis, construção civil, transportes, minérios, enfim? os grandes negócios. Em dezembro de 2010, o então czar antidrogas da ONU, o italiano Antônio Maria Costa, alertou que o sistema bancário de compensações não quebrou, diante dos efeitos da crise financeira de 2008, em razão do fluxo de capitais provenientes do narcotráfico. Resumindo: enquanto nos ocupamos com CPIs, BBB's, Fazendas, Copa do Mundo, e a vida íntima das celebridades, os poderosos chefões de transnacionais do crime assumem o poder absoluto.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

AS FÁBULAS DE ESOPO E LA FONTAINE

 
 
ALBERTO AFONSO LANDA CAMARGO
 
Esopo teria sido um fabulista grego que viveu no século VI a. C. Na realidade a sua existência é discutível e, conforme pesquisadores, tratar-se-ia de um personagem mais lendário que histórico, apesar de muitas localidades ainda hoje reivindicarem a honra do seu nascimento.

O primeiro a reunir as fábulas atribuídas a Esopo foi Demétrio de Faleiros, em 325 a. C.

La Fontaine também foi um fabulista, que, por sua vez, nasceu em 1621 e morreu em 1695, ou seja, cerca de 1.300 anos após Esopo e cerca de 1.000 anos após Demétrio de Faleiros.

Como as fábulas atribuídas a Esopo e reunidas por Demétrio de Faleiros foram reescritas ou adaptadas por La Fontaine, eufemismos para não dizer que o célebre francês era um plagiário, ele foi considerado duvidosa e condescendentemente o pai da fábula moderna, apesar de ganhar luzes com os trabalhos de outros. Reconhecidamente, no entanto, ele foi um poeta, não filósofo, e, em 1863, tornou-se membro da Academia Francesa de Letras.

Dentre as mais conhecidas fábulas estão "A Cigarra e a Formiga", "O Lobo e o Cordeiro" e "A Raposa e as Uvas", transmitidas, como as demais, também verbalmente na antiguidade e mesmo na idade média como forma de atingir as pessoas, na sua maioria com pouca cultura em tais épocas, para que entendessem melhor e de forma fácil, pela sua composição alegorística e fantástica, as mensagens morais, apesar da sua inverossimilhança.

Na atualidade, as fábulas são reproduzidas em livros infantis e fartamente ilustrados para ensinar as crianças, que, obviamente, não têm a capacidade que têm os adultos, que não precisam, teoricamente, de construções alegóricas e fantásticas para entender as mensagens morais que as fábulas procuram transmitir.
 
 
NOTA: tirado de comentário no facebook.

HOBBES LEVIATHAN

 

ALBERTO AFONSO CAMARGO

 
Eu estou lendo atualmente "Hobbes Leviathan - Uma Visão Teológica", de E. B. F Midgley. É uma leitura interessante a partir da metade do livro quando o autor aborda de forma mais objetiva o "contrato social" conforme propõe Hobbes. Este tem a visão de que o homem natural não abandona este estado de luta pela sobrevivência, onde vivem em constante guerra e, por isto, para viver em sociedade precisa de um soberano que dita a sua conduta, daí a idéia de contrato social. 
 
Como o homem não evolui deste estado, este soberano impõe-lhe regras, com as quais ele concorda e se compromete cumprir. Não perde, no entanto, o seu instinto de conservação e está sempre prestes, a qualquer momento, agir conforme seu estado de natureza. Hobbes deu o absolutismo, mas, tembém, deu o republicanismo não absolutista, que pressupõe que o homem precisa de regras impostas, o oposto ao liberalismo, para não agir conforme seu estado natural, do qual não evolui.
 
Ao analisar as virtudes conforme Hobbes, em dado momento escreve Midgley: "Com a 'justiça' e a 'magnanimidade', imagina Hobbes que a 'política e a ciência' assegurarão um crescente domínio sobre o originalmente e inclusive hostil meio ambiente humano e não humano." Ou seja, para ele a hostilidade é natural entre os homens desde a sua origem e mantêm-se mesmo quando aprende a viver em sociedade, só contendo as hostilidades em virtude das regras que lhe são impostas, portanto, sempre que necessário, abre mão delas e age conforme seu estado de natureza.

Quem se opõe a esta percepção de Hobbes é John Locke, para quem o homem evolui do estado de natureza e passa a viver em sociedade sem a necessidade de tanta fiscalização e regras, as quais ele assimila e cumpre porque compreende esta necessidade para que a convivência seja respeitosa.

Os acontecimentos em geral, conforme se comportam as pessoas no mundo, não nos permitem, pelo menos a mim, concluir se quem está com a razão a respeito do homem é Hobbes ou Locke. Alguns exemplos que temos visto, no entanto, ainda que Locke possa ter razão, nos inclinam com força para acreditar que Hobbes não está de to errado.
 
Tirado de comentário no facebook.