Revelamos aqui as causas e efeitos da insegurança pública e jurídica no Brasil, propondo uma ampla mobilização na defesa da liberdade, democracia, federalismo, moralidade, probidade, civismo, cidadania e supremacia do interesse público, exigindo uma Constituição enxuta; Leis rigorosas; Segurança jurídica e judiciária; Justiça coativa; Reforma política, Zelo do erário; Execução penal digna; Poderes harmônicos e comprometidos; e Sistema de Justiça Criminal eficiente na preservação da Ordem Pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

GUERRA DO RIO - Jornada de terror


GUERRA DO RIO. Jornada de terror - Rodrigo Muzell, Zero Hora, 25/11/2010

– Hoje é uma boa noite para circular no Rio. A polícia está toda na rua, os bandidos estão todos escondidos.

O delegado Pablo Sartori, que atua na DP do bairro de Bonsucesso, fez a previsão a Zero Hora às 22h30min de terça-feira. A razão da tranquilidade era o aparente sucesso das operações da polícia em mais de 20 favelas – uma resposta enérgica à baderna causada pelo tráfico desde domingo. Mas a afirmação de Sartori só se confirmou durante meia-hora. Às 23h, um Voyage já queimava atravessado no bairro do Rio Comprido. O atentado foi o primeiro de 15 ataques espalhados pela região metropolitana do Rio: uma cabina da PM foi metralhada, além de pelo menos cinco ônibus, 11 carros e uma van foram incendiados depois do Voyage. Foi a noite mais violenta desde o início da onda de atentados.

Entre 22h de terça-feira e 5h de quarta-feira, Zero Hora circulou pela Grande Rio. Nos 206 quilômetros rodados, testemunhou a perplexidade de quem via fogo em frente de casa, o trabalho dos bombeiros que o combatiam, o desespero de quem teve o patrimônio perdido e a tensão da Polícia Militar, que atendia às ocorrências. A seguir, o relato da incursão na guerra do Rio.

23h - Carro em chamas

– É difícil até de acreditar que algo assim possa acontecer na frente de casa – disse o estudante Hugo Ribeiro, 19 anos, assistindo de trás das grades de seu prédio aos bombeiros apagarem o Voyage em chamas.

Moradores das redondezas, em Rio Comprido, aglomeravam-se, tiravam fotos e faziam vídeos com o celular. A esteticista Geni de Lima ralhava com a filha porque a garota a desobedecia:

– Ela insiste em caminhar à noite na rua e isso é muito perigoso hoje em dia.

Quem viu lembra do Voyage parando na rua e interrompendo o trânsito. Dois homens saíram de dentro e atearam fogo nos pneus. Ao fugir, ainda tiveram tempo para assaltar um motorista atônito, parado atrás do carro que ardia. Levaram pasta, carteira e celular, entraram em uma Tucson preta que esperava com motor ligado e zuniram em fuga.

Os sócios David Santos e Wellington Alves, que dirigiam uma van à cata de passageiros, assistiam a tudo estupefatos. Estavam quase desistindo de ir à casa da namorada de Wellington, na Grande Rio, durante a noite.

– Vamos pegar a Via Dutra com o coração na mão – disse David.

0h40min - Ataque à PM

Desde que a polícia iniciou o contra-ataque, o clima no Rio está diferente. Há menos trânsito do que o normal na hora do rush, há bem mais PMs do que o carioca está acostumado. Só que os policiais fazem falta no subúrbio, a madrugada provou. Cerca de meia hora depois do incêndio no Rio Comprido, os rádios dos repórteres de plantão – uma dezena deles peregrinava a madrugada, em bando – informavam a próxima parada: Praça da Emancipação em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Lá, um sargento da PM, sozinho em uma cabina, havia sido atacado a tiros de metralhadora.

Encravada na parte mais urbanizada do município, em um calçadão, a unidade levou ao menos 10 tiros – sobrou também para uma lixeira em frente e um banco, ao lado. Segundo testemunhas, uma caminhonete passou lentamente e abriu fogo contra a cabina. Um tiro acertou em cheio o vidro.

– Se não fosse blindado, eu não estaria aqui falando com vocês – disse o sargento aos repórteres.

Foi a última das poucas frases que falou. Os policiais não dão entrevistas, não têm seus nomes publicados. É regra na guerra urbana. Da meia dúzia de PMs que dava segurança ao local, apenas um sorriu – uma vez.

Era o contrário no grupo de repórteres, cujas brincadeiras em alto e bom som quebravam a tensão da madrugada. De vez em quando, um lembrava da possibilidade de um novo ataque dos bandidos, e aconselhava:

– Melhor não ficar de costas para rua.

Outro, ao saber que PMs confrontaram bandidos em uma Sportage cuja descrição batia com a dada pelo sargento atacado, profetizou:

– Essa noite não vai acabar nunca.

1h25min - Faroeste urbano

Como todos os outros da madrugada, o confronto não rendeu nenhuma prisão. Segundo os policiais, houve troca de tiros, e os bandidos fugiram para uma favela próxima, sem deixar de atear fogo no estofado da caminhonete. Esta, os PMs evitaram que queimasse. Não foi o caso do Palio de um analista de sistemas de 26 anos. Às 1h25min, ele chegava à delegacia, em Duque de Caxias, para registrar um trauma.

– Estava chegando à casa da minha noiva. Estacionei e dois caras nos apontaram armas, com uma garrafa de álcool na mão. Corri com a minha noiva para casa, eles começaram a atirar e atearam fogo – contou.

Dois carros da PM foram à casa da família da noiva do analista de sistemas, que acabava de voltar da faculdade. Quando viu a polícia estacionar próximo ao Palio queimado, pai, mãe e a estudante saíram pelo portão cautelosos. E desfiaram, para todos ali, uma história de faroeste.

– Quando entrei em casa e fechei o portão, eles começaram a atirar para dentro e berrar que iriam voltar. Um carro a gente perde, mas e a vida? - dizia a estudante.

Informantes dos repórteres avisam: três carros queimados em Niterói, um ônibus em chamas mais perto de Duque de Caxias. Mais próximo e inédito, é o ônibus que atrai a caravana da mídia.

2h20min - Barricada na rua

Uma mesa de madeira e algumas cadeiras foram o suficiente para quatro homens armados queimarem dois ônibus inteiros. Um estava apenas com o motorista e outro iniciava a viagem com um passageiro. Armas na cabeça, foram expulsos das conduções. Viram as chamas tomarem conta e os bandidos fugirem calmamente a pé, em direção à favela de Guaxa.

Aconteceu em uma das avenidas centrais do município de Belford Roxo, a Automóvel Clube. O calor das chamas derreteu coberturas plásticas de lojas e as explosões danificaram fios. O ataque foi à 1h10min: mais de uma hora depois, às 2h20min, duas equipes de bombeiros ainda combatiam o fogo.

Um promotor de eventos ouvido por ZH vive no município da Grande Rio há 28 anos. Mesmo quando a cidade ganhou o desagradável prêmio de uma das mais violentas do mundo, conta, ele não havia se sentido tão inseguro.

– Colocaram as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) no Rio e foi uma maravilha para eles. Sobrou pra nós: os bandidos de lá estão vindo para cá, para as comunidades aqui em volta – reclama.

Com a violência, vem o prejuízo financeiro. Ao cotar o seguro de seu Uno zero-quilômetro, ele descobriu que teria de pagar cerca de R$ 500 a mais só porque seu endereço é de Belford Roxo. Carros não podem ficar na rua, e caminhar depois das 22h é loteria.

– A gente já sabe, esse é o horário do arrastão.

3h32min - Fogo na rodovia

No meio da madrugada, as ocorrências pipocavam nos rádios dos policiais militares. Até então, havia registro de carros incendiados também em Niterói e no Recreio dos Bandeirantes. A informação de que dois ônibus haviam sido incendiados na rodovia Presidente Dutra, principal ligação entre Rio e São Paulo, agitou os jornalistas. Mais cedo, o governo fluminense havia aceitado um reforço da Polícia Rodoviária Federal para proteger as estradas.

Segundo a PRF, três homens armados renderam o motorista e os passageiros. Como em Belford Roxo, incendiaram rapidamente o ônibus e fugiram. Quando ZH chegou ao local, no km 199, o ônibus havia sido retirado tempo antes: na pista, ainda havia fumaça.

A última parada da noite seria um alarme falso. Depois da tentativa frustrada de dois integrantes do morro Pavão-Pavãozinho em colocar uma bomba sob um carro em Copacabana, chegou a informação de que um carro havia sido incendiado na Siqueira Campos, coração do bairro cartão-postal do Rio. A noite terminou com o alívio de um boato, mas durou pouco. A manhã se iniciou com o um incêndio de ônibus, na avenida Vicente de Carvalho. E, com a resposta da polícia que deixou já deixou mais de 20 pessoas mortas, houve a confirmação de que o delegado Sartori estava muito errado.

Não está bom para circular no Rio.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

POR UM PLANO EMERGENCIAL DE ENFRENTAMENTO



Em 2006, lancei o livro "Ordem e Liberdade" (Edit Pol Ost, 304 paginas) revelando as causas e efeitos da insegurança pública no Brasil, propondo propostas, entre as quais - "Vencer a Guerra do Rio" (pg. 249-258). Neste ítem, mostro que esta guerra já vem sendo noticiada pela mídia desde 07 de janeiro de 1981, quando a revista Veja estampou na capa a manchete - "A Guerra Civil no Rio". Em janeiro de 2011, esta guerra fará 20 anos sem solução. Em 1995, a Revista Terra publicou uma reportagem intitulada - "República Federativa do Tráfico". Até foi ventilada uma "teoria da chacina" (Ordem e Liberdade, 251, PolOst, 2006) que fazia as autoridades acreditarem numa retaliação sangrenta no caso do Estado adotasse medidas coativas para acabar com o tráfico nas favelas.

No livro, proponho medidas a partir do reconhecimento dos três Poderes de Estado de que o RIo vive uma guerra urbana. Em seguida, a decretação do "estado de defesa" poderá criar salvaguardas e envolver os instrumentos de coação, justiça e cidadania.

Apoiado em leis emergenciais e justiça célere, um bem elaborado plano de enfrentamento pode definir o papel de cada um dos instrumentos de Estado dentro do ambiente de guerra urbana, inclusive legalizando a participação das Forças Armadas em cercos e barreiras, estabelecendo proteção aos moradores locais e salvaguardando as ações policiais. Este plano de enfrentamento poderá impedir a liberdade de deslocamento da bandidagem e evitar a ocorrência o propalada banho de sangue. Hoje, diante dos fatos, acredito que esta estratégia está sendo iniciada pelos traficantes para fazer o Estado recuar. Tomara que eu esteja errado.

Para dar seguimento ao trabalho das polícias, varas especiais de justiça poderão acelerar os processos, julgar e sentenciar a uma pena em presídios federais. Leis emergênciais e rigorosas aplicadas por terrorismo podem dar o suporte às ações policiais e decisões da justiça.

Esta guerra não será ganha sem uma ação integrada envolvendo os Poderes da União, o Estado e o Município do Rio, com medidas rigorosas, ação contundente, pressão contínua e emprego de estratégias militares e policiais utilizadas contra guerrilheiros e terroristas.

A GUERRA DO RIO - Bandidos atacam, incendeiam veículos e deixam feridos


Ataques de bandidos no Rio deixam feridos nesta quarta-feira. Ônibus e vans também são atingidos - 24/11 às 11h59 Flavia Lima, Gabriel Mascarenhas, Tais Mendes, Vera Araújo - O GloboCBN, GloboNews TV


RIO - Novos ataques levaram medo aos cariocas na manhã desta quarta-feira. Quatro pessoas ficaram feridas após uma van ser incendiada na Estrada da Urucânia, em Santa Cruz, e foram levadas para o Hospital Rocha Faria. Desde o início da madrugada, já são dez carros, uma van e cinco ônibus incendiados.

De acordo com o filho do dono da van, Leandro da Silva Rodrigues, de 30 anos, o motorista, identificado como João, e a trocadora, identificada como Eliane, tiveram ferimentos e estão sendo socorridos no Hospital Rocha Faria. A cobradora teve queimaduras nas pernas, nos pés e no braço. O motorista teve queimaduras na perna e no braço. Além deles, dois passageiros tiveram queimaduras e foram medicados na mesma unidade. Eles já tiveram alta.

Também em Santa Cruz, na Avenida Felipe Cardoso, um ônibus foi incendiado. Um outro coletivo, da Viação Três Amigos, foi queimado em Vicente de Carvalho perto da estação do Metrô. As chamas consumiram todo o veículo. O tráfego foi parcialmente interrompido no sentido Penha. Policiais da Delegacia de Homicídios vão apresentar, nesta quarta-feira, Magno Tavares dos Santos, 24, acusado incendiar o coletivo. De acordo com os policiais, ele mora no Complexo do Alemão. Ele foi detido em flagrante na Avenida Martin Luther King, logo após o crime.

Segundo um motorista que estava em uma barraca próxima ao local onde o ônibus foi incendiado, dois rapazes pediram ao dono da barraca um pedaço de papel. Eles estavam com duas garrafas de dois litros cheias de combustível. Logo depois, o ônibus parou no ponto para desembarcar e embarcar passageiros:

- Eles correram e achei que iam pegar o ônibus, mas depois de 4, 5 minutos desceram o motorista e cinco passageiros - contou Vagner Júnior, motorista da linha Madureira-Candelária.

Em Cavalcante, na Rua Eraldo Santos Araújo, dois homens numa moto atearam fogo em uma Parati. Segundo o taxista Orlando Junior, ele saía de casa quando escutou o barulho de uma freada brusca.

- Achei que era assalto quando vi uma moto saindo em velocidade com dois homens e o carro pagando fogo - contou.

Diogo de Abreu,enteado do dono do veículo, conta que foi avisado por vizinhos:

- O carro sempre fica estacionado aqui e nunca aconteceu nada. Estamos no meio de uma briga e acaba sobrando para gente. Não temos segurança nenhuma no Rio - lamentou ele, lembrando que por pouco o carro, que é a gás, não explodiu - Apenas os pneus do veículos explodiram - disse.

Na madrugada, moradores do prédio 81 da Rua Siqueira Campos, em frente as Praça Vereador Rocha Leão, em Copacabana, acordaram nesta madrugada assustados com uma explosão. Um carro que estava estacionado junto ao prédio, foi atacado por criminosos, que jogaram uma bomba atersanal debaixo do veículo. Com a explosão, o fogo logo se alastrou. Moradores desceram do prédio e ajudaram, com baldes d´água e extintores, a debelar o incêndio. O carro ficou parcialmente destruído. Ninguém saiu ferido.

Também na madrugada, no bairro Jardim Redentor, em Belford Roxo, dois ônibus da viação Regina foram queimados. Os criminosos interromperam o trânsito, obrigaram os passageiros a descer do veículos e então atearam fogo. Os bombeiros controlaram as chamas. Poucas horas depois, bandidos incendiaram um ônibus da viação Expresso São Geraldo, na Via Dutra, na pista sentido Rio, na altura de Engenheiro Pedreira, também na Baixada. Os três ônibus ficaram totalmente destruídos, mas não houve vítimas.

Em Duque de Caxias, um Fiat Palio foi incendiado na Rua França Junior, no Parque Lafaiete. Os criminosos tentaram atacar os ocupantes, que correram para dentro de casa. Ninguém ficou ferido.

Na região central de Niterói, nos bairros do Fonseca e São Lourenço, quatro carros foram incendiados, depois de atingidos por coquetéis molotov. Outros dois carros também foram queimados em São Gonçalo.

No Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio, um carro foi incendiado, sem deixar vítimas.

ARMAS DE GUERRA: FERRAMENTAS DO TRÁFICO


Armas: ferramentas do tráfico - Pablo Vilarnovo, O Globo, 23/11 às 16h06 Artigo do leitor

Ninguém duvida que as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) instaladas em áreas críticas no Rio de Janeiro foram uma evolução da estratégia no combate à criminalidade no estado. Negar aos traficantes uma área segura de onde poderiam planejar ataques e arrecadar com o tráfico de drogas é fundamental para melhorar a segurança da cidade.

Porém, as UPPs não farão milagres em curto prazo. Elas são apenas o início de um processo, mais complicado, tanto politicamente quanto economicamente. Todos sabem que o lucro do tráfico de drogas sustenta outro tipo de crime: o tráfico de armas. O poder de fogo presente nas mãos dos traficantes é tão ou mais importante que o tráfico de drogas em si. As armas são as ferramentas de trabalho do tráfico, é de onde o poder vem, é como conseguem dominar áreas inteiras, realizar assaltos, assassinatos e arrastões. Tudo o que estamos vendo em escalada na cidade do Rio de Janeiro.

O Brasil possui uma das legislações mais restritivas quanto ao comércio legal de armas de fogo. Porém uma lei no papel não quer dizer nada às pessoas que não tem respeito pelas leis. O cidadão comum, com o desejo de se proteger ou proteger sua família ou sua propriedade, foi o maior atingido por uma lei que nunca foi eficaz em promover aquilo a que se destina.

O problema real é que nossas fronteiras são desprotegidas de tal forma que o fluxo de armas de grosso calibre, que são proibidas aos cidadãos comuns, inunda o país com tal facilidade que, como demonstrado nas escutas telefônicas realizadas pela polícia, é extremamente fácil comprar uma caixa de granadas ou outro tipo de arma de fogo. A informação que circula no Rio de Janeiro é que os traficantes que foram expulsos das favelas, onde as UPPs foram instaladas, só são aceitos em outras comunidades por seus comparsas caso eles levem consigo um fuzil, o que demonstra claramente a importância dessa ferramenta para o tráfico de drogas.

Esse problema já é bem conhecido das autoridades e foi investigado durante a CPI do Tráfico de Armas. Infelizmente o resultado da CPI, como várias que acontecem no Brasil, foi esquecido e não integrou nenhum planejamento de segurança pública ou foco pelo Governo Federal. A CPI demonstrou claramente o caminho que essas armas fazem até chegar aos traficantes no Rio de Janeiro, qual é sua origem, seus pontos de entrada, os atores que participam desse comércio.

Cabe ao Governo Federal, na figura dos Ministérios da Justiça e do Ministério da Defesa organizar uma política preventiva de controle das fronteiras, disponibilizando recursos, tanto humano, quanto material, para um melhor controle fronteiriço do país. Uma proposta seria transformar a Força Nacional de Segurança em uma polícia de fronteira, atuando nos lugares conhecidos de tráfico de armas, organizando processos de inteligência com a Polícia Federal e inclusive, com as Forças Armadas já que as armas de grosso calibre são de seu uso exclusivo.

Sem que o problema do tráfico de armas seja encarado de maneira séria, como o principal vetor da violência hoje no Brasil e mais especificadamente no Rio de Janeiro, as cenas que, infelizmente, nos acostumamos a ver serão repetidas.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA

Acertou o autor deste artigo ao afirmar que "o problema real é que nossas fronteiras são desprotegidas de tal forma que o fluxo de armas de grosso calibre, que são proibidas aos cidadãos comuns, inunda o país com tal facilidade que, como demonstrado nas escutas telefônicas realizadas pela polícia, é extremamente fácil comprar uma caixa de granadas ou outro tipo de arma de fogo." A Polícia Federal, a PRF e as Forças Armadas não podem e nem está nas atribuições destas forças o patrulhamento diário das fronteiras do Brasil. Estras forças são empregadas nas fronteiras em operações de inopino e emergenciais, cujos resultados são tão superficiais que causam pouco dano no tráfico de armas de guerra, drogas, pessoas e animais. O Brasil precisa criar uma Polícia Nacional de Fronteiras para executar o patulhamento diário, ostensivo, permanente e continuo ao longo das fronteiras com ação de presença preventiva e repressiva. Para tanto, defendo a transformação da PRF em Polícia Nacional de Fronteiras, passando as rodovias para as polícias estaduais, cumprindo assim o princípio federativo da autonomia territorial das unidades federativas. É um força que tem bons salários, estrutura e capacidade de se adpatar à nova missão. As Forças Armadas prestariam todo o apoio necessário em terra, ar e mar, amparada por leis específicas e rigorosas.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

POLÍTICA DE SEGURANÇA PRECISA DE AJUSTES

TERRORISMO. Especialistas: ataques exigem resposta contundente. Estudiosos de segurança e entidades do Rio apoiam UPPs, mas acham que política de segurança precisa de ajustes - Por Carla Rocha, Elenilce Bottari e Simone Candida - O Globo, 23/11/2010

A polícia do Rio está diante da mais forte reação do crime organizado à política de segurança que acabou com o tráfico armado nas favelas pacificadas. De sábado até ontem, houve na Região Metropolitana uma série de arrastões — em especial na Zona Sul e em áreas de grande visibilidade, como a Linha Vermelha — e ataques em que veículos foram incendiados. Os episódios acontecem a menos de um mês de a primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do estado, no Morro Dona Marta, em Botafogo, completar dois anos. Para especialistas e representantes de entidades do estado, os bandidos estão agindo dessa forma para aterrorizar a população e reagir à implantação das UPPs, que, à medida que avançam, controlam territórios antes dominados por traficantes.

Os especialistas acreditam que, apesar de terem sido recorrentes nos últimos dias, esses episódios são atos isolados. Mas requerem uma resposta contundente do poder público.

“O objetivo é aterrorizar as pessoas”, diz antropóloga

A antropóloga Alba Zaluar observa que o aspecto positivo é o fato de ficar claro que a atual política de segurança está incomodando, dando prejuízo às facções criminosas.

— É óbvio que o projeto (das UPPs) tem que continuar. Só que o cobertor é curto.Os bandidos querem obrigar o governo a diminuir o efetivo nas favelas para combater os arrastões nas ruas. Eles querem criar um dilema insolúvel, mas há uma solução, que é não só aumentar o efetivo, mas também optar por ações mais bem estudadas e estratégicas — diz, acrescentando que as próximas UPPs devem priorizar o subúrbio, onde fica a maioria das favelas ainda dominadas por traficantes. — Se observarmos, os ataques se concentram nas áreas onde moram ou por onde passam os mais ricos da cidade. O objetivo é aterrorizar as pessoas.

Além da perda de territórios retomados pelo estado, o tráfico, diz o sociólogo Cláudio Beato, também está perdendo espaço para as milícias.

— Por um lado, está chegando ao fim o período de domínio violento do tráfico nas favelas. Por outro, há o crescimento e a estruturação das milícias — afirmou Beato, diretor do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), observando que as últimas ações são uma estratégia burra de chamar a atenção da sociedade.

— Praticamente (os traficantes) estão convocando as autoridades para uma reação.

Para enfrentar a situação, ele defende que o estado invista mais em inteligência e análise criminal:

— O Rio analisa os índices criminais, visando a premiação e cumprimento de metas. Deveria analisar para compreender a movimentação da mancha criminal e agir preventivamente.

Para o coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense, professor Eurico de Lima Figueiredo, faltou planejamento para a implantação dos programas do governo:

— A intenção é afrontar, levar pânico à população. Eles agem com selvageria, numa violência desproporcional ao objetivo que querem alcançar. De qualquer maneira, são ações isoladas, desorganizadas. Se esses ataques resultam de uma transferência das atividades criminais do tráfico e da milícia para as áreas urbanas, se for isso, então significa que precisamos de forma sistêmica de policiamento que incorpore recursos humanos e materiais capazes de garantir a segurança pública, ao mesmo tempo que o governo implanta suas UPPs.

Eurico frisou que ataques em vias expressas podem ser evitados. Ele disse que as linhas Amarela e Vermelha têm poucas entradas e saídas, o que dificulta a fuga dos criminosos.

Já Expedito Carlos Stephani Bastos, pesquisador de assuntos militares da Universidade Federal de Juiz de Fora, disse que as ações lembraram os ataques a delegacias e prédios públicos de São Paulo, por grupos isolados. Para ele, faltou visão das autoridades.

— Não adianta fazer UPPs se essas áreas não forem inseridas na vida normal da cidade. Também é preciso reestruturar a polícia, investindo muito em inteligência. Hoje, a polícia só sabe (das ações de bandidos) depois.

O sociólogo Michel Misse acredita que os bandidos queiram usar a mídia para causar insegurança:

— A ideia é usar a mídia para assustar a população e amplificar o problema. O que está acontecendo é uma reação como já houve no Sul da Itália, no México e na Colômbia. É uma reação a uma política de segurança que está ocupando áreas antes controladas por organizações criminosas.

ABIH sugere pedido de reforço ao Exército

Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio (ABIH- RJ), Alfredo Lopes, diante da gravidade da situação, o governo do estado deveria pedir reforços ao Exército ou à Força Nacional:

— A repercussão é muito ruim porque as pessoas ficam com medo de vir para a cidade. Quem conhece o Rio sabe que se trata de uma reação à política de ocupação das comunidades, que vem sendo bem executada pelo governo. Mas os turistas não querem saber disso. É para que a população pense: todos os PMs estão nas UPPs e o resto da cidade está abandonado. É hora de o governo pedir ajuda.

Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, quem vive no Rio sabe que o momento é de batalha. Ele compara a guerra da polícia do Rio com os traficantes à luta travada pela Itália no combate à máfia.

— Estamos vivendo um panorama parecido. O governo, por meio das UPPs, tomou de volta territórios que estavam nas mãos de grupos criminosos. Agora, eles tentam uma reação. É preciso ter perseverança. A polícia não pode desistir — diz Eduardo Eugenio."

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA

Estes "especialistas" precisam tirar a viseira que impede de ampliar a visão de segurança pública. Ainda utilizam uma visão míope para debater o problema e apontar soluções. "O poder público" que deve reagir não é só o Poder Executivo responsável pelas forças policiais e ações sociais. O Poder Público são os três Poderes que formam o Estado uno e indivisível. A Segurança Pública é um conjunto de processos administrativos, jurídicos e judiciais necessários para a preservação da Ordem Pública, da vida e do patrimônio das pessoas. As forças policiais são instrumentos iniciais deste direito coletivo que dependem da continuidade no Judiciário, no MP, no setor Prisional, na Defensoria, na Saúde, na Educação e no monitoramento dos benefícios penais.

No caso do Rio, extrapolou a situação de desordem pública passando a ser uma guerra urbana onde ocorre enfrentamentos, violência e execuções diárias envolvendo facções organizadas com arsenais de guerra, drogas pesadas e poder financeiro que ameaçam instituições e a convivência pacífica em sociedade.

Quem pede a intervenção das Forças Armadas não respeita o regime democrático. Estas forças só poderão entrar no conflito para apoiar o sistema de enfrentamento orientado por leis emergenciais e justiça presente. Para tanto, a situação exige a decretação do "estado de direito" previsto na constituição federal. É a única forma de contar com todos para restabelecer em definitivo a ordem pública no Rio.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A GUERRA DO RIO - Facção criminosa pode ser responsável pelos arrastões


Para Beltrame, facção criminosa pode ser responsável pelos arrastões. O secretário disse que medidas serão tomadas, mas que mágica não existe - O Dia, 22/11/2010

Rio - Para o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, "um pequeno grupo de uma facção criminosa" seria o responsável pelos arrastões que levaram pânico à motoristas nas últimas 24 horas na capital fluminense e na região do Grande Rio. A declaração foi dada nesta segunda-feira, em Brasília, em coletiva à imprensa.

O Fiat Uno e o Monza queimados. Ao fundo, a van que também foi incendiada por bandidos | Foto: Severino Silva / Agência O Dia


"É um grupo relativamente pequeno de uma facção criminosa que está se sentindo prejudicada com a nossa ação. Nós não vamos nos desviar deste tipo de conduta. Senão formos em frente com esse projeto o Rio está sujeito a não conseguir resultados melhores na Segurança Pública”, disse o secretário.

Ainda de acordo com José Mariano Beltrame, os arrastões podem ser uma represália à ocupação de 13 comunidades pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) e à transferênca de presos com envolvimento com o tráfico de drogas para presídios federais.

Beltrame informou que a polícia irá fazer incursões nas favelas, que não irá pedir ajuda ao governo federal, mas não garante que esse tipo de crime deixe de acontecer. O secretário disse, também, que mágica não existe.

"Temos de entender que mágica não existe. Quem oferecer mágica e quem oferecer uma solução para segunda-feira, os senhores me desculpem, é mentiroso - disse.

"O reforço em algumas áreas terá que ser feito por remanejamento de pessoal", completou Beltrame.

'Não há garantias'

O secretário falou sobre a política adotada no Estado e afirmou que é uma ação voltada para um resultado de médio e longo prazos e declarou que "o que vai resolver é tomar o território (dos criminosos) e debelar armas".

"Não há garantia. Quem garante isso? Quem garante isso é de certa forma um blefe. Como você vai garantir que não vai acontecer incidente em uma cidade com 12 milhões de pessoas e que historicamente o tráfico se instalou?", questionou o secretário.

Os ataques de criminosos no último domingo e nesta segunda-feira foram classificados como "situações pontuais" pelo secretário.

"Isso está muito mais nas situações rotineiras do dia-a-dia da polícia", afirmou.

José Mariano Beltrame negou que o encontro em Brasília seja para discutir os ataques no Rio. De acordo com ele, a reunião seria para discutir as pendências de fim de governo.

Estratégias para coibir arrastões

Representantes da Secretaria de Segurança Pública, a Polícia Militar e a Polícia Civil realizaram uma reunião na manhã desta segunda-feira. O objetivo do encontro, que contou com a participação do delegado Roberto Sá (sub-secretário de planejamento operacional), coronel Mário Sérgio Duarte (comandante geral da PM) e Allan Turnowski (Chefe de Polícia Civil), foi traçar estratégias de combate à onda de arrastões na cidade.

Quatro medidas serão tomadas para coibir as ações criminosas desta natureza. Na primeira, 140 motocicletas compradas para reforçar o patrulhamento em vias expressas serão colocadas nas ruas a partir desta terça-feira - hoje a PM fará o translado dos veículos para os respectivos batalhões.

A segunda medida diz respeito às folgas dos policiais. A corporação quer dimunuir o número de policiais em casa durante as festas de fim de ano, justamente para aumentar o efetivo nas ruas. A terceira visa aumentar o número de blitzes, coibindo assim possíveis ações. A quarta é utilizar o Batalhão de Choque para dar apoio ao patrulhamento das vias expressas.

Na manhã desta segunda-feira, cinco bandidos armados atacaram motoristas no Trevo das Margaridas, próximo à Avenida Brasil, na altura de Irajá, Zona Norte do Rio. Os criminosos roubaram e incendiaram três veículos - uma van de passageiros que fazia o trajeto de Belford Roxo para o Centro -, além de um Monza e uma Uno.

O tráfego ficou complicado na Avenida Brasil e na Rodovia Presidente Dutra, sentido ao Centro, em função do incidente. Este é o quinto ataque a motoristas em 48 horas. Também em Irajá, uma cabine da PM foi atingida por um tiro de fuzil disparado por criminosos. A PM acredita que o ataque tenha sido de autoria do mesmo grupo que colocou fogo nos veículos no Trevo das Margaridas.

Cabral admite que crimes podem ter ligação com UPPs

Após os incidentes desta manhã o coronel Lima Castro, responsável pelo setor de Comunicação Social da Polícia Militar, informou que o patrulhamento em vias expressas será permanente. "Estamos colocando 140 motocicletas nas ruas. Estas motos puderam ser emplacadas na última sexta-feira e agora já podem ser utilizadas. Além disso, o Batalhão de Choque dará apoio às ações de patrulhamento. O patrulhamento será permanente", disse o coronel Lima Castro.

O governador Sérgio Cabral admitiu que os atos criminosos podem estar ligados ao fato dos traficantes estarem perdendo espaço em decorrência da implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) em comunidades do Rio.

"Sem dúvida, os arrastões têm relação com reconquista de território e com nova política de segurança pública do Rio. Mas não vamos retroceder, continuaremos reconquistando territórios e levando a paz às comunidades - disse o governador.

Nova onda de arrastões neste fim de semana

Motoristas do Rio voltaram a sofrer neste fim de semana com uma onda de arrastões de bandidos em vários pontos do estado em menos de 24h. Um dos ataques aconteceu domingo à noite, em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo, em Laranjeiras. Foram cinco arrastões e no primeiro, na Rodovia BR-116 (Rio-Magé), altura de Caxias, um eletricista foi morto na frente da família com tiro de fuzil, no sábado à noite - seu corpo foi sepultado nesta segunda-feira no Cemitério Nossa Senhora das Graças, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Domingo à noite, na Via Dutra, altura de Pavuna, um rapaz foi baleado na cabeça em outro arrastão e está internado em estado grave no Hospital Getúlio Vargas.

Houve ataques que levaram pânico a motoristas também na Lagoa e na Linha Vermelha. Neste último, criminosos bloquearam o trânsito em plena luz do dia, assaltaram os ocupantes de um carro, incendiaram outros dois e atiraram contra um veículo da Aeronáutica, além de explodirem uma granada nele.

Na Linha Vermelha, eram cerca de 13h, quando seis bandidos armados com cinco fuzis e uma granada fecharam a pista sentido Centro da Linha Vermelha, altura de Vigário Geral. O grupo estava em dois carros: Corsa Sedan e Voyage. Os criminosos levaram pertences de passageiros de um Palio, e queimaram um Prisma e um Fox, após expulsarem os ocupantes. “Eles mandaram a gente sair”, afirmou a professora aposentada Maria de Lourdes Albuquerque, 53, que estava no Fox. “Voltei para buscar a minha bolsa depois. Quando o fogo apagou, peguei o que sobrou da minha aliança que tinha escondido no carro”, contou.

O sargento da Aeronáutica Renato Fernandes da Silva estava com carro oficial, um Fiat Doblò, enguiçado na lateral da via, e foi ameaçado. “Quando apontaram o fuzil para mim, eu consegui fugir pelo lado do carona e pular para o mato”, contou.

Em arrastão na Via Dutra, bandidos armados de fuzis bloquearam trecho da estrada sentido São Paulo, altura de Pavuna, e roubaram um Kia Cerato e um Prisma. Na ação uma das vítimas, Guilherme Feitosa da Silva, de 26 anos, foi baleado na cabeça e foi levado para o Hospital Getúlio Vargas, e seu estado é grave.

Na Lagoa, seis motoristas foram atacados e tiveram dinheiro e pertences levados. A polícia investiga se o ataque na Lagoa foi promovido pelos mesmos ladrões que agiram nas Laranjeiras momentos antes.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - ESTA GUERRA INTERMINÁVEL QUE ATERRORIZA O RIO DEVERIA TER TERMINADO. QUE MOTIVOS IMPEDEM OS GOVERNANTES DE APLICAR O INSTRUMENTO DE EMERGÊNCIA "ESTADO DE DEFESA" PREVISTA NA CONSTITUIÇÃO "PARA RESTABELECER A ORDEM PÚBLICA OU A PAZ SOCIAL AMEAÇADAS POR GRAVE E INSTABILIDADE INSTITUCIONAL" (ART. 136)?

INFELIZMENTE ESTA GUERRA NÃO DECLARADA JÁ TEM MAIS DE 20 ANOS SEM SOLUÇÕES. OS GOVERNANTES PREFEREM ADOTAR MEDIDAS ISOLADAS COMO AS UPPS, SUPERFICIAIS COMO OS ENFRENTAMENTOS, IMEDIATISTAS COMO O USO DAS FFAA E FORÇA NACIONAL EM OCASIÕES ESPECIAIS E MIDIÁTICAS DIANTE DO CLAMOR POPULAR DO QUE RESOLVER A QUESTÃO.

ATÉ QUANDO?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

INSUFICIÊNCIA DA FAMÍLIA E DO ESTADO

Insuficiência da família e do Estado, por César Augusto Trinta Weber, MÉDICO, ZERO HORA 19/11/2010

Talvez pudéssemos atribuir a duas vertentes a compreensão, um pouco melhor, do fenômeno da epidemia pelo crack. A primeira vertente é a insuficiência da família. Refiro-me a toda uma incapacidade do modelo familiar moderno e pós-moderno de responder, minimamente, ao significado atribuído ao verbo cuidar. À medida que as possíveis geometrias familiares que vêm se constituindo na contemporaneidade não favorecerem o instituto de uma disciplina “docilizadora” de corpos e mentes, a presença e o diálogo permanentes devem ser fortalecidos enquanto recursos motivadores da relação familiar.

Qualquer que venha a ser o corpo constitutivo dessa família, não se deve perder de vista que ela, a família, é a responsável por aqueles que se encontram sob a sua guarda, até o alcance de certa maturidade. Falo do cuidado, do zelo afetivo, material, psicológico e espiritual. Quando a família é insuficiente, a rua não perde tempo em recrutar o filho que se desagrega.

A segunda é o Estado, que por sua vez também é insuficiente para quem se diz de bem-estar social. É evidente que ninguém desconhece o caráter multifatorial que demanda o enfrentamento desse mercado de produção, distribuição, comercialização e consumo de drogas. Mas se é verdade que não se desconhece toda essa matriz produtiva de desagregação e sofrimento sociofamiliar, por que o Estado está falhando com todos aqueles que deveria cuidar?

O Estado falha pela sua insuficiência tanto na responsabilidade social quanto na segurança pública. No social, falha em não oferecer uma educação qualificada e universal, falha na geração de oportunidades de trabalho e renda dignos, falha nas condições de acesso a moradias e transporte público para população de baixa renda ou aquela que sequer acessa o mercado formal ou informal de produção de bens e consumo. Falha, ainda, no saneamento básico e na assistência à saúde de qualidade, sobretudo nesse ponto porque a dependência química é uma doença e como tal necessita de uma atenção especializada.

Na segurança pública e no aparato de inteligência repressiva, o Estado falha pela sua insuficiência no uso da máquina pública para combate ao ciclo promotor da dependência química. Sabemos das dificuldades geográficas que as nossas extensas fronteiras promovem, mas isso só deve servir de estímulo à capacitação e ao aumento do contingente de especialistas ao exercício dessa importante missão: não permitir que as drogas de todos os tipos cheguem ao Brasil. Outro exemplo é o sistema carcerário, que deve ser estimulador da reabilitação de seus apenados e não um local privilegiado para o comando de novos crimes.

É claro que essas medidas só podem ser feitas combatendo-se, nas suas entranhas, a corrupção.