Revelamos aqui as causas e efeitos da insegurança pública e jurídica no Brasil, propondo uma ampla mobilização na defesa da liberdade, democracia, federalismo, moralidade, probidade, civismo, cidadania e supremacia do interesse público, exigindo uma Constituição enxuta; Leis rigorosas; Segurança jurídica e judiciária; Justiça coativa; Reforma política, Zelo do erário; Execução penal digna; Poderes harmônicos e comprometidos; e Sistema de Justiça Criminal eficiente na preservação da Ordem Pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O ESTOPIM


PEC 300, FFAA, PMs E O ESTOPIM. Por Paulo Ricardo Paul, artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
- 12/02/2011


Eu tenho escrito que nós estamos perdendo as oportunidades democráticas de conter o avanço da cleptocracia no Brasil e as eleições de 2010 demonstraram isso claramente. Temos que aprender que a cleptocracia será detida, portanto, que o façamos de forma democrática e o mais rapidamente possível, caso contrário, ela será detida de uma forma ou de outra.

Meu pai foi preso em 1964, ele ficou pouco mais de uma semana no DOPS - Rio de Janeiro, na época eu tinha apenas sete anos e pouco sei a respeito, a não ser a dor de estar afastado dele, o sofrimento familiar. Eu e ele fizemos um pacto tácito sobre essa prisão, ele praticamente nada contou do período no cárcere e eu nada perguntei, acordo que valeu até 1996, quando ele desencarnou e eu perdi a presença física de um dos raros seres humanos que posso citar como exemplo de homem e de vida.

Escrito isso deixo claro que tenho minhas queixas pessoais contra os governos militares, eu e minha mãe temos seqüelas desse período, embora não tenhamos solicitado qualquer compensação financeira do Estado brasileiro. Portanto, deixo claro que os diagnósticos que se seguem não passam nem de perto por um saudosismo do período dos governos militares, por ser um militar estadual, apesar de reconhecer uma série de conquistas nacionais no período dos governos militares.

Ao analisarmos cada fato, através da nossa interpretação, acabamos construindo um diagnóstico, que pode ser correto ou inteiramente equivocado, assim sendo, solicito que usem esse filtro para interpretarem o contido nesse artigo.

Primeiro diagnóstico: a insatisfação.

Tenho amigos nas Forças Armadas e troco informações com vários militares federais sobre diversos assuntos, oportunidades nas quais procuro avaliar entre outras questões, o atual estágio emocional das tropas diante da cleptocracia que se instala no país, em face da responsabilidade das Forças Armadas de defenderem os interesses nacionais. Conclui que a insatisfação é generalizada, logo abaixo do andar dos Oficiais Generais.

Segundo diagnóstico: faltam lideranças, mas as bases podem despertar.

O soberano só dorme tranqüilo, quando os soldados estão satisfeitos. Essa é uma máxima que não pode ser esquecida, sobretudo quando se vive em uma democracia ainda em construção, como ocorre no Brasil. A insatisfação das tropas é algo muito perigoso considerando que os pátios castrenses são cobertos por uma pólvora invisível, mas que entra em combustão na primeira batida mais forte com o pé no chão, durante uma marcha. Apesar de tal realidade, no momento não percebo lideranças que possam desencadear o processo de cima para baixo, mas ele pode se iniciar de baixo para cima, não podemos esquecer. Além disso, o estopim pode nem estar dentro dos quartéis das Forças Armadas, podem estar no quartel do lado.

Terceiro diagnóstico: uma greve nacional das Polícias Militares pode começar pelo Norte e Nordeste.

O ano de 2010 terminou com uma corrente de emails percorrendo a internet no sentido de que caso a PEC 300 não fosse votada poderia ser desencadeada uma greve nacional de Bombeiros Militares, Policiais Militares e Policiais Civis. A greve ainda não ocorreu. Sinceramente, como já escrevi nesse espaço, nunca acreditei nessa possibilidade, considerando a falta quase que completa de mobilização nos maiores estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, etc. Mantenho essa posição, porém faço uma ressalva: algumas Polícias Militares do Nordeste e do Norte estão motivadas e podem funcionar como catalisadores de uma greve nacional.

Quarto diagnóstico: o efeito cascata.

A greve geral pode começar pelo Nordeste ou Nordeste e se espalhar. Iniciada a expansão do movimento grevista, penso que o atual governo deve avaliar a possibilidade das Forças Armadas não reprimirem a mobilização, ao contrário, aderirem a partir das bases. Tal possibilidade significará uma irreversibilidade do movimento e o início do processo de reconstrução nacional com o enfrentamento das forças cleptocráticas.

Caso eu tenha alguma razão, a instalação de um novo governo militar no Brasil pode ter início em uma greve de uma Polícia Militar de um estado do Nordeste ou do Norte.

Os meus diagnósticos podem estar completamente equivocados, aliás, a passividade existente no ar por parte do povo e das forças nacionais, sinaliza contra os meus diagnósticos.

Penso que inclusive você, meu caro leitor, também não acredite nesses diagnósticos, nessas possibilidades, porém me senti na obrigação de torná-los públicos, pois a vida ensina que é melhor prevenir do que remediar, ainda mais considerando que não existem remédios para todos os males.

Por derradeiro, lembro que a história da humanidade ensina que inúmeras mobilizações nacionais começaram com pequenos movimentos classistas ou populares.

No Brasil, o estopim pode ser um honesto Policial Militar do Norte ou do Nordeste. Juntos Somos Fortes!

Paulo Ricardo Paul é Professor e Coronel, Ex-Corregedor Interno da PM do Rio de Janeiro.

CENSURA EM ALTA NO BRASIL

Censura está em alta no País, diz relatório. Brasil bateu recorde de notícias retiradas do Google na campanha eleitoral, aponta o Comitê para Proteção dos Jornalistas, de Nova York - 15/02/2011, Gabriel Manzano, de O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - Só na primeira metade do ano passado, o Google foi obrigado, por autoridades brasileiras, a retirar de seus servidores 398 matérias. É um recorde mundial. O dobro do segundo da lista, que foi a Líbia.

Além disso, nos dias finais da corrida eleitoral brasileira os juízes do País emitiram 21 ordens de censura, segundo pesquisa do Centro Knight para o Jornalismo, do Texas (EUA), e muitas agências de notícias foram multadas ou tiveram de remover conteúdos. "Esse quadro mostra que a censura e a autocensura, que vem junto, estão atingindo níveis muito sérios no Brasil", resume Carlos Lauria, do Comitê para a Proteção dos Jornalistas.

Lauria, que vive em Nova York, apresentou ontem em São Paulo o relatório Ataques à Imprensa em 2010 - um livrão de 400 páginas, com outro menor sobre América Latina, num encontro promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). "Nossos levantamentos apontam 44 jornalistas mortos em serviço, no ano passado, e 145 presos, em todo o mundo", revela.

A censura ao Estado, hoje em seu 565.º dia, é o destaque de abertura do levantamento sobre o continente. "É espantoso que num país como o Brasil um dos maiores jornais seja proibido de noticiar um grande escândalo, que envolve figuras políticas conhecidas. Não consigo imaginar o Washington Post, por exemplo, sendo proibido de publicar algo sobre um ex-presidente do país." De São Paulo Lauria vai a Brasília, onde se reunirá amanhã com autoridades do Planalto, da Secretaria das Comunicações e dos Direitos Humanos. Sua agenda inclui uma visita ao Supremo Tribunal Federal.

Artifício

Os levantamentos do CPJ, nos cinco continentes, apontam um novo artifício dos governos para impedir o trabalho da imprensa: eles enquadram os jornalistas em crimes de outra ordem, como subversão ou atos contra o interesse nacional, nos quais as leis sobre imprensa não se aplicam. Isso tem ocorrido no Oriente Médio, no Casaquistão, na África.

Na América Latina, o fenômeno mais grave é o misto de censura e autocensura. México, Honduras, Equador e Venezuela são os países onde, segundo o comitê, os jornalistas vivem momentos mais difíceis. "Há regiões onde o crime organizado manda e a lei é ignorada, como no norte do México", lembrou o coordenador. "Em cidades como Puerto Juarez ou Reynosa há uma rotina de assassinatos, perseguições e sequestros. Sem garantias, o jornalista tem de escolher entre publicar ou mudar sua pauta. Assim as informações vão desaparecendo", resume. "É dramático ver 0 que ocorreu em Reynosa. Foram mortas cerca de 300 pessoas em uma semana e não saiu uma linha em lugar nenhum."

A DOLOROSA MORTE DA IDEOLOGIA


José J. Camargo, Professor e membro titular da Academia Nacional de Medicina - ZERO HORA 16/02/2011

O principal problema de irmos junto com a mudança é perdermos a noção exata do quanto mudamos!

Seria ótimo que dispuséssemos de algum tipo de GPS que periodicamente nos trouxesse ao ponto de partida, permitindo, quem sabe, a generosidade de corrigirmos o trajeto!

Assistindo outra vez a Hair, depois de um intervalo de, sei lá, uns 40 anos, foi inevitável o choque nostálgico com esse passeio no túnel do tempo.

Claro que havia extravagâncias, com uma rebeldia exagerada e quase ridícula, um fascínio pelo uso das drogas, ainda festejadas sem censura, e uma necessidade irreprimível de protestar. Mas que saudade do que acreditávamos, e que maravilha ver as pessoas sentadas para falar de ideias!

Como esquecer as reformas que pareciam tão próximas e plausíveis e como não lamentar que tenha gorado o mundo que idealizamos com tanta intensidade nas madrugadas do bar Alaska?

Para o debate ideológico, esse exercício intelectual que os jovens de hoje não têm a menor noção do que seja, era indispensável que os litigantes tivessem munição cultural, e isto sempre fez da preparação a parte mais estimulante e sedutora.

Os jovens de então, camuflados atrás de uma barba malcuidada que lhes dava um ar de despojada independência, falavam de Descartes (um colega, futuro psiquiatra, se referia ao Descartes como o René, tamanha a intimidade!), Marx, Proust e Sartre, como se eles tivessem sido professores do cursinho pré-vestibular, e todos tinham uma posição ideológica, não importava qual fosse, defendida com galhardia até depois do último chope.

Provocado pelo desafio de conviver com jovens, tenho procurado ver o que eles discutem, e é uma tristeza descobrir que só falam de coisas e, mais triste ainda, de pessoas.

Para a comunicação bizarra com outros alienados, eles se utilizam de um vocabulário que não ultrapassa 20 palavras, digitadas em fragmentos, num idioma original que é o símbolo perfeito de uma cultura rudimentar que une jovens solitários viciados em teclado.

Se forçarmos a barra, querendo saber o que eles pensam sobre qualquer assunto que extrapole o muro alto do individualismo, provavelmente ficaremos falando sozinhos!

Claro que eles não sabem o que estão perdendo e, não sabendo, estão poupados do sentimento de perda, mas a alienação em que vivem tem e terá um preço muito alto, que será cobrado a pleno quando esta geração inculta, logo ali adiante, for chamada a assumir os destinos do país.

A política é a única atividade humana que não permite espaços vazios e, se os íntegros, cultos e competentes se omitem, estas lacunas serão imediatamente ocupadas pelos desonestos, maquiavélicos e trambiqueiros.

Nada mais propício ao oportunista e ao mau-caráter do que uma geração despolitizada.

Se não, como explicar o surgimento do Tiririca e a persistência do Sarney?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

LIVRO BRANCO DE DEFESA NACIONAL


Livro reúne textos sobre a estratégia das Forças Armadas - O GLOBO, 14/02/2011 às 23h16m; Evandro Éboli


BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff criou, por decreto, um grupo interministerial que vai elaborar o Livro Branco de Defesa Nacional, que servirá como uma radiografia das Forças Armadas. Prevista para ser lançada no primeiro mandato do ex-presidente Lula, só agora o governo toma iniciativa de criar essa publicação. O Livro Branco conterá informações estratégicas sobre o planejamento dos militares, suas normas, e o orçamento das Forças Armadas.

" É um grande glossário, uma radiografia dos militares "

Apesar de ter sido uma ideia do governo petista em 2003, coube a um deputado de oposição cobrar a criação da publicação. Ano passado, o então deputado Raul Jungmann (PPS-PE) relatou e apresentou emenda ao projeto da Estratégia Nacional de Defesa prevendo inclusão do Livro Branco no texto, sancionado por Lula. Jungmann disse que até os tipos de armas, os blindados e os aviões constarão no livro. Esse tipo de publicação existe no mundo inteiro, e a decisão de implantá-lo, segundo Jungmann, chega com atraso no Brasil:

- É um grande glossário, uma radiografia dos militares. Vai trazer não só as tecnologias que estão sendo empregadas, os equipamentos, como a política pacifista do Brasil. Vai demonstrar que o país não está desguarnecido. O Livro Branco abre a caixa-preta das Forças Armadas.

A publicação deverá ser enviada ao Congresso e votada a cada quatro anos. Pelo decreto, o grupo de trabalho, que será integrado por representantes de 11 ministérios, definirá os temas que estarão inseridos no livro. A equipe se reunirá a cada três meses, e a previsão do governo é que o acesso ao Livro Branco esteja liberado numa "perspectiva de médio e longo prazos".

O indicado pelo Ministério da Defesa presidirá o grupo, que terá poderes até para convidar entidades da sociedade para participar desse trabalho.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

OS BATALHADORES BRASILEIROS


É um erro falar que existe nova classe média, diz sociólogo - UIRÁ MACHADO, DE SÃO PAULO, FOLHA.COM. 13/02/2011

Autor do livro "Os Batalhadores Brasileiros", o sociólogo Jessé Souza afirma que a ascensão social de 30 milhões de pessoas no governo Lula não produziu uma "nova classe média", mas uma classe social diferente, que ele chama provocativamente de "batalhadores".

Assim como fizera em seu livro anterior, Souza procura determinar as características dessa classe por um recorte diferente do que ele chama de economicista e quantitativo, fugindo tanto de análises pelo consumo e renda quanto de abordagens marxistas "unidimensionais".

Abaixo, trechos da entrevista sobre a classe que, para ele, "parece se constituir, com o resgate social da ralé, na questão social, econômica e política mais importante do Brasil contemporâneo".

Folha - Após lançar o livro "A Ralé Brasileira", o senhor agora publica "Os Batalhadores Brasileiros". Qual a diferença entre a "ralé" e os "batalhadores"?

Jessé Souza - Os dois livros se enquadram no projeto de longo prazo de estudar as classes sociais mais importantes do Brasil contemporâneo de maneira não economicista e quantitativa, como sempre acontece. Quando falo em estudos economicistas, penso tanto nas descrições estatísticas baseadas em níveis de consumo e renda quanto nas descrições marxistas fundadas numa leitura unidimensional da realidade. Alguns desses estudos são importantes como ponto de partida descritivo, mas o que nenhum deles oferece é uma leitura sociocultural da realidade que nos possibilite compreender o principal: a produção diferencial de seres humanos a partir do pertencimento a classes sociais distintas. Ainda que a renda seja um componente importante do pertencimento de classe, pessoas muitos diferentes podem ter renda semelhante. Para que possamos explicar e compreender uma realidade social complexa é necessário penetrar na dimensão mais recôndita das motivações profundas do comportamento social e nos dramas, sonhos, angústias e sofrimentos humanos que elas implicam. O ganho em compreensão em relação a uma realidade opaca e complexa é insofismável. Acredito que, por conta desse tipo de interesse instruído teórica e metodologicamente, foi possível perceber, talvez pela primeira vez, a existência do um terço de brasileiros excluídos como uma única classe, ou seja, pelo estudo dos pressupostos afetivos, morais e emocionais que explicam a origem, a manutenção e o destino social provável às pessoas dessa classe específica. No caso da "ralé", formada pela ausência dos pressupostos que permitem a incorporação das capacidades exigidas pela sociedade competitiva moderna, é possível perceber a irmandade entre pessoas que moram no interior do Piauí ou na periferia de São Paulo quando a regra é a fragmentação e, portanto, a cegueira da percepção. É essa cegueira que percebe essa classe de abandonados sociais apenas no registro espetacularizado e manipulador da oposição polícia/bandido, aprofundando todos os preconceitos das classes do privilégio contra esses esquecidos, explorados como mão de obra barata por esses mesmos privilegiados. O ganho em termos de uma percepção alternativa, totalizadora e crítica da realidade social como um todo não é pequeno.
No caso dos "batalhadores", esse mesmo ponto de partida nos permitiu, na contramão dos estudos dominantes sobre esse assunto, perceber tanto o potencial de chance e de oportunidade que efetivamente existe nessa nova classe que se constitui defronte os nossos olhos quanto articular a dimensão do sofrimento e dor humanos sistematicamente silenciados por uma leitura superficial e triunfalista da realidade.

Em seu livro, o senhor questiona a afirmação de que o governo Lula alçou 30 milhões de brasileiros à classe média e diz até que se trata de uma mentira. Por quê?

Eu não nego que houve uma efetiva ascensão social de 30 milhões de brasileiros nem que esse fato seja extremamente importante e digno de alegria. O que questiono é a leitura dessa classe como uma classe média. A classe média é uma das classes dominantes em sociedades modernas como a brasileira porque é constituída pelo acesso privilegiado a um recurso escasso de extrema importância: o capital cultural nas suas mais diversas formas. Seja sob a forma de capital cultural técnico, como na "tropa de choque" do capital (advogados, engenheiros, administradores, economistas etc.), seja pelo capital cultural literário dos professores, jornalistas, publicitários etc., esse tipo de conhecimento é fundamental para a reprodução e legitimação tanto do mercado quanto do Estado. Consequentemente, tanto a remuneração quanto o prestígio social atrelados a esse tipo de trabalho --e da condução de vida que ele proporciona-- são consideráveis. A vida dos "batalhadores" é completamente outra. Ela é marcada pela ausência dos privilégios de nascimento que caracterizam as classes médias e altas. E, quando se fala de "privilégios de nascimento", não se está falando apenas do dinheiro transmitido por herança de sangue nas classes altas. Esses privilégios envolvem também o recurso mais valioso das classes médias, que é o tempo. Afinal, é necessário muito tempo livre para incorporar qualquer forma de conhecimento técnico, científico ou filosófico-literário valioso. Os batalhadores, em sua esmagadora maioria, precisam começar a trabalhar cedo e estudam em escolas públicas muitas vezes de baixa qualidade. Como lhes faltam tanto o capital cultural altamente valorizado das classes médias quanto o capital econômico das classes altas, eles compensam essa falta com extraordinário esforço pessoal, dupla jornada de trabalho e aceitação de todo tipo de superexploração da mão de obra. Essa é uma condução de vida típica das classes trabalhadoras, daí nossa hipótese de trabalho desenvolvida no livro que nega e critica o conceito de "nova classe média".

Qual o ganho analítico de enxergar os batalhadores como uma classe diferente da classe média tradicional? E quais as implicações que essa diferenciação traz para o governo Dilma?

O ganho é tanto analítico quanto político. Essa diferenciação permite, em primeiro lugar, perceber a realidade social como ela é, com suas ambiguidades e contradições constitutivas. Depois, como em toda leitura sóbria da realidade, ela possibilita criticar todo tipo de manipulação política ou de leitura triunfalista da realidade.
Com relação não apenas ao governo Dilma, mas em relação ao futuro do Brasil, essa nova classe de trabalhadores, típica do novo tipo de capitalismo financeiro que logrou se globalizar, parece se constituir --com o resgate social da ralé-- na questão social, econômica e política mais importante do Brasil contemporâneo.
Para mim, existem duas alternativas possíveis: a primeira é essa classe ser cooptada pelo discurso e prática individualista e socialmente irresponsável que caracterizam boa parte das classes dominantes no Brasil; a segunda alternativa é essa classe assumir um papel de protagonista e inspirar, pelo seu exemplo social, a efetiva redenção daquela classe social de humilhados sociais que chamo provocativamente de ralé. Muitos dos batalhadores que entrevistamos vinham, inclusive, da própria ralé, mostrando que as fronteiras entre as classes são fluidas e que não existem classes condenadas para sempre. Esse ponto me parece fundamental, já que é precisamente a existência desses abandonados sociais --e não qualquer tipo de patrimonialismo advindo de um suposto "mal de origem" português, como ainda hoje acredita nossa ciência social dominante-- o que nos separa das sociedades mais igualitárias e socialmente mais justas do globo.

Quando o senhor afirma que os batalhadores alcançaram um "lugar ao sol à custa de extraordinário esforço", o senhor não está assumindo a tese do mérito individual, a qual o senhor habitualmente critica?

Quando critico a ideologia do mérito individual, não estou negando a extraordinária importância do esforço individual, nem, muito menos, a necessidade de reconhecimento social efetivo para os desempenhos singulares em qualquer área da vida. Qualquer noção de justiça social moderna tem que articular responsabilidade social e reconhecimento dos desempenhos singulares e extraordinários. Há que proteger tanto a ideia de que somos responsáveis uns pelos outros quanto estimular o esforço pessoal.
Quando critico a ideia de mérito individual, é apenas pelo seu uso amesquinhado como ideologia, ou seja, como falsa percepção da realidade. É muito diferente quando uma classe inteira de privilegiados de nascimento, com boas escolas, estimulados em casa o tempo todo, com tempo livre desde sempre para fazer o que bem entende e dinheiro para investir em cursos de línguas e pós-graduações valorizadas, chama o próprio sucesso de mérito individual e ainda acusa as classes que não tiveram acesso a qualquer desses privilégios sociais de preguiçosos, burros e culpados pelo próprio fracasso. A tese do mérito individual que crítico é, portanto, herdeira do modo como o liberalismo sempre foi recebido no Brasil: um discurso para legitimar os privilégios de nascimento das classes abastadas, como se esses privilégios decorressem do esforço apenas de indivíduos, e não da herança de sangue e de classe.
No estudo dos batalhadores, o que impressionou foi o extraordinário esforço de superação de condições efetivamente adversas, todas contribuindo antes ao desânimo e ao desespero do que ao enfretamento corajoso das condições negativas ao sucesso social e econômico. O título do livro foi uma homenagem à luta cotidiana e silenciosa desses brasileiros. Este termo "batalhadores" sinaliza o fato de que o que perfaz o cotidiano dessas pessoas é a necessidade de "matar um leão por dia" como forma de vida de toda uma classe social que tem que lutar diariamente contra o peso da própria origem.

Nos casos empíricos de seu livro, há operadores de telemarketing, uma profissão relativamente nova, e feirantes, ocupação bem antiga. Como as duas funções aparecem juntas para caracterizar tipos de uma nova classe social que é tão conforme o modelo atual do capitalismo?

Para responder a esta pergunta, temos que compreender, antes de tudo, ainda que sucintamente, o que significa "modelo atual de capitalismo", de modo a podermos compreender de maneira mais adequada como essa "nova classe trabalhadora" se torna, não só no Brasil, mas em todos os países emergentes, como China e Índia, sua classe suporte, como diria Max Weber, mais típica. O que hoje é chamado por muitos de "capitalismo financeiro" representa um movimento que começa nos anos 80 no mundo e se propaga nos anos 90 entre nós. O pano de fundo desse movimento eram taxas de lucro decrescentes em nível mundial já havia décadas. Mas as mudanças não foram apenas nem principalmente de retórica política. Elas comandaram transformações profundas tanto na forma de produção de todo tipo de mercadoria quanto no regime de trabalho. Ao fim e ao cabo, o conjunto de mudanças apontou no sentido de um aumento da velocidade de circulação do capital, em grande medida determinado pelos cortes com gastos de controle e supervisão de trabalho, que caracterizavam a produção do tipo fordista tradicional, como existe ainda hoje, por exemplo, em algumas indústrias automobilísticas. Amplos setores da produção de mercadorias de todo tipo são realizados agora por trabalhadores em fábricas a céu aberto ou pequenas unidades familiares que se acreditam, inclusive, empresárias de si próprias, o que explica, também, que o epíteto de "nova classe média" tenha caído tão rápido no gosto de todos, inclusive dos próprios batalhadores. Na verdade, o capital financeiro que flui sem qualquer controle por todos os pontos do globo pode, agora, se valorizar a taxas de lucros e juros sem precedentes também a partir de atividades realizadas por um exército mundial de trabalhadores --que abundam precisamente nos países populosos ditos emergentes-- sem direitos trabalhistas, sem passado sindical e sem tradição de lutas políticas, que muitas vezes não pagam impostos, que trabalham de dez a 14 horas ao dia e ainda nem sequer precisam de capatazes ou supervisores, porque se acreditam "livres" e patrões de si mesmos. Essa mudança abrange não apenas as "novas atividades", como as da informática, mas também redefinem e transformam, inclusive, atividades tradicionais, como a dos feirantes.

Quais são os valores dessa classe batalhadora?

Em primeiro lugar, há que ficar bem claro que uma pesquisa sobre valores sociais profundos, como a que realizamos, não pode imaginar que esses valores sejam de fácil acesso e estejam na cabeça das pessoas de modo claro e óbvio. Ao contrário, como diria Max Weber, a primeira necessidade dos seres humanos não é a de dizer a verdade --muito menos a verdade sobre si mesmos--, mas sim justificar e legitimar a vida que realmente levam. Por conta disso, uma pesquisa de sociologia crítica é diferente de uma pesquisa meramente quantitativa. Nas pesquisas quantitativas podemos saber, por exemplo, em quem as pessoas vão votar ou que sabonete elas usam, precisamente porque suas autoimagens quase nunca estão em jogo nesse tipo de questão. Quem se interessa em perceber os estímulos mais profundos da conduta social, ao contrário, tem que realizar um esforço interpretativo e hermenêutico que as pesquisas quantitativas comuns não fazem e perceber os valores na prática cotidiana efetiva da vida das pessoas. Afinal, valores são aquilo que nos conduzem para um lado e não para outro da vida, mesmo que de modo pré-reflexivo ou inconsciente. Nós optamos por analisar a vida no trabalho e na família de nossos informantes, de modo a retirar dessas esferas fundamentais os impulsos e estímulos práticos --os tais "valores" na nossa visão-- da conduta de vida. Neste particular, o horizonte valorativo dos batalhadores pode ser mais bem percebido no confronto com os membros da ralé.
A principal diferença em relação aos excluídos e abandonados sociais é a constituição de uma ética articulada do trabalho duro. Afinal, não basta querer trabalhar em qualquer área da vida. É necessário também poder trabalhar, ou seja, ter logrado incorporar (literalmente "tornar corpo", de modo pré-reflexivo e automático) os pressupostos emocionais e morais do trabalho produtivo no mercado competitivo. O capitalismo atual pressupõe crescente incorporação de distintas formas de conhecimento e de capital cultural como porta de entrada em qualquer de seus setores competitivos. Como esses pressupostos faltam por diversos motivos à ralé, esta é condenada aos trabalhos braçais ou com mínimo de conhecimento, servindo, portanto, de mão de obra barata para qualquer serviço duro, desvalorizado e pesado. Esse não é o único horizonte dos batalhadores. Os batalhadores são quase sempre vindos de famílias pobres, mas, no entanto, bem estruturadas, com os papéis de pais e filhos reciprocamente compreendidos, exemplos de perseverança na família e estímulo consequente --baseado em exemplos concretos-- para o estudo e para o trabalho. Temos nas famílias dessa classe a incorporação e internalização efetiva da tríade disciplina, autocontrole e pensamento prospectivo que sempre está pressuposta tanto em qualquer processo de aprendizado na escola quanto em qualquer trabalho produtivo no mercado competitivo. Sem disciplina e autocontrole é impossível, por exemplo, concentrar-se na escola --daí que os membros da ralé diziam repetidamente que "fitavam" o quadro negro por horas sem aprender. Essa "virtude" não é natural, como pensa a classe média que universaliza indevidamente às outras classes suas virtudes e privilégios para depois culpar a vítima do abandono social, como se o abandono e a miséria fossem uma escolha. Por outro lado, sem pensamento prospectivo --ou seja, a visão de que o futuro é mais importante do que o presente--, não existe sequer a possibilidade de condução racional da vida pela impossibilidade de cálculo e de planejamento e pela prisão no aqui e agora. No caso dos batalhadores, a incorporação dessa economia emocional e moral mínima é duramente conquistada, às vezes no horizonte do aprendizado familiar, às vezes tardiamente, nas mais diversas formas de socialização religiosa. Assim, ainda que falte a essa classe o acesso às formas mais valorizadas de capital cultural --monopólio das "verdadeiras" classes médias--, não lhes falta força de vontade, perseverança e confiança no futuro, apesar de todas as dificuldades. Em um contexto minimamente favorável, como o que vivemos até agora, esse exército de batalhadores se mostra então disponível e atento à menor possibilidade de trabalho rentável e de melhoria das condições de vida por meio, por exemplo, do consumo de bens duráveis que antes lhes eram inatingíveis.

Durante as eleições deste ano, alguns debates ganharam fortes contornos religiosos, como foi o caso da discussão sobre o aborto. A religião é mais importante para os batalhadores do que para a classe média tradicional?

O tema da religião é tão importante para essa classe que até dedicamos toda uma parte do livro a esta temática. Além disso, a socialização religiosa dessa classe perpassa boa parte dos textos construídos a partir das análises empíricas. É preciso cuidado com esse tema, já que ele pode servir para que se construa uma nuvem de preconceitos contra essa classe. É, sem dúvida, correto que as religiões evangélicas --como, aliás, todas as religiões em alguma medida-- exigem o sacrifício do intelecto, o que, efetivamente, não ajuda no exercício da tolerância nem no desenvolvimento das capacidades reflexivas dos seres humanos. Em troca, no entanto, essas religiões oferecem o que a sociedade como um todo, o Estado ou mesmo algumas das famílias menos estruturadas dessa classe jamais deram a eles: confiança em si mesmos, autoestima, esperança e a força de vontade para vencer as enormes adversidades da vida sem privilégios de nascimento. Nesse sentido preciso, tudo leva a crer que a religião seja efetivamente mais importante para esses setores do que para as classes médias estabelecidas, ainda que nunca tenhamos feito nenhum estudo sistemático. Mas me parece uma hipótese plausível. E não apenas as religiões evangélicas, que são muito importantes especialmente nos núcleos urbanos. Também a religião católica, no interior do Nordeste, ainda muito forte e atuante, cumpre uma função fundamental de baluarte da solidariedade familiar e como fundamento de uma ética do trabalho em muitos aspectos semelhantes à ética do protestantismo.

Se é verdade que a classe batalhadora não é uma classe média em sentido tradicional, e se aí vai uma crítica, não é possível ao menos imaginar que os filhos dos "batalhadores" terão melhores oportunidades que seus pais? Nesse sentido, a crítica não perderia sua força? Não é possível imaginar que a ascensão à classe média se dará em "duas etapas"?

Sem dúvida que isso é possível. Até porque o Brasil é um país singular no sentido de ser extremamente desigual e, ao mesmo tempo, apresentar forte mobilidade social muitas vezes ascendente. É preciso, no entanto, também levar em consideração que uma concepção sociocultural das classes sociais implica a percepção de que as mudanças sociais tendem a preservar aspectos importantes da história e da tradição das classes sociais envolvidas nessas mudanças. Como nos constituímos como seres humanos de modo antes de tudo afetivo e emocional, pela incorporação insensível e pré-reflexiva daquilo e de quem amamos, somos sempre muito mais parecidos com nossos pais --ou de quem quer que tenhamos recebido afeto e amor-- do que as vezes muitos imaginam. Mas o que é importante é que as mudanças sociais e pessoais são, sim, sempre possíveis. Mais importante ainda é lembrar que as mudanças sociais jamais acontecem apenas pelo jogo das variáveis econômicas. O aprofundamento dos processos de aprendizado social e político que o Brasil começa a realizar são também fundamentais para a constituição de uma sociedade em que todos tenham efetiva condição de participar da competição social com um mínimo de igualdade de condições, que é o que muitos entre nós desejam.

A nova classe batalhadora faz surgir um novo tipo de preconceito no Brasil?

Sem dúvida. Basta olhar qualquer das revistas que analisam o padrão de consumo dessa classe sob a égide da visão de mundo da classe média estabelecida. Ela aparece sempre como um tanto vulgar e sem o "bom gosto" que caracterizaria os estratos superiores. Como regra geral, as classes superiores se veem sempre como as "classes do espírito", da personalidade refinada e sensível, e percebem as classes baixas como as "classes do corpo" e, portanto, rudes, primitivas e sem refinamento.

Uma das características dos "batalhadores" parece ser a precariedade da situação econômica e social. De que forma o governo pode melhorar ou piorar a situação dessa classe?

Eu acho fundamental o aprofundamento mais consequente tanto da política social --no sentido de que apenas uma pequena ajuda econômica tópica não irá retirar o um terço de brasileiros da exclusão e do abandono-- quanto de políticas de crédito e de estímulo aos batalhadores. A "parte de baixo" da população brasileira tem demonstrado sobejamente que consegue transformar qualquer pequena ajuda em progresso social e econômico significativo que interessa e beneficia a todos os setores da sociedade inclusive os superiores.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A HISTÓRIA DO AK-47, A ARMA PREFERIDA DO TRÁFICO


A biografia de uma arma. Jornalista americano conta a história do AK-47, o fuzil preferido de Bin Laden e de traficantes e rebeldes de todo o planeta. Eliane Lobato - REVISTA ISTO É, N° Edição: 2153. 13.Fev.2011

Ela nasceu em 1947, mas ninguém diz que é uma sessentona. Pequena, quase delicada, considerada bonita e dona de uma anatomia soberba e sedutora, ao longo das décadas ela mudou pouco e segue fazendo basicamente o mesmo de sempre: matar. É considerada a arma mais devastadora do planeta e tem sua história contada agora no livro “AK-47 – A Arma que Transformou a Guerra”, escrita pelo americano Larry Kahaner. Biografias de modelos vintage de carros, como a Ferrari e o Porsche, ou de guitarras cobiçadas, a exemplo da Fender Stratocaster e da Les Paul, já existem há tempo. Mas a de um fuzil é algo raro e se justifica pela importância que o AK-47 adquiriu na sucessão de conflitos bélicos em que foi protagonista.

Essa arma tem sido responsável por mais de 250 mil mortes por ano em todo o mundo e, de sua invenção até agora, já alcançou cerca de 100 milhões de undades. O nome deriva de “Automática Kalashnikov”, referência ao pai da criatura, o russo Mikhail Timofeevich Kalashnikov – um jovem soldado que, ferido por nazistas, esboçou o AK-47 no leito de um hospital. Sua obsessão, durante a convalescença, era criar um fuzil que ajudasse o então Exército soviético a derrotar os alemães rapidamente. Era preciso que ele fosse fácil de manusear e carregar, além de resistente e com alto poder de fogo. O sr. K alcançou todos os objetivos.

A Kalashnikov é uma arma pequena e simples que tem um pente de balas na forma de banana, capaz de disparar 600 tiros por minuto. Sobre sua resistência, soldados americanos que estiveram no Vietnã disseram: “AKs enterradas em áreas de cultivo de arroz por muitos meses, ao serem desenterradas imundas e enferrujadas, disparavam perfeitamente, bastando dar um tranco no ferrolho de ação com o calcanhar da bota.” Não só Exércitos a adotaram: ela também é a preferida de traficantes e terroristas. Em quase todas as fotos conhecidas de Osama Bin Laden, um AK o acompanha. Segundo o autor do livro, ele e seu grupo, a Al-Qaeda, “consideram essa arma a mais importante dos terroristas.”

Um dos motivos seria o fato de ser leve e, portanto, possível de ser usado por crianças ou pré-adolescentes aliciados por rebeldes no Congo, Mianmar, Sri Lanka e Afeganistão, para citar apenas alguns poucos palcos de batalhas sangrentas. Os Exércitos rebeldes descobriram logo sua praticidade e que era preciso menos de uma hora de treinamento para sua boa manipulação, o que o tornava perfeitamente adequado para braços e corpos pequenos – as crianças-soldados, mão de obra barata para matar e morrer. O livro cita o caso do mariner Natham Ross Chapman, o primeiro soldado americano a perder a vida pelo fogo hostil no Afeganistão: quem o matou foi um menino de 14 anos armado com um AK. O que torna esse fuzil tão onipresente é também o seu baixo custo. Em qualquer disputa territorial ou de poder são despejados muitos deles para “liquidar a fatura”, como se deu em Ruanda, cujo genocídio ocorrido em 1994 tinha a assinatura do AK.

Um de seus maiores rivais é o fuzil M16, mas, segundo Kahaner, “essa disputa nunca será decidida.” A fama de “arma dos oprimidos” – nascida nos arrozais da Guerra do Vietnã – espalhou pelo mundo uma imagem incomparável de sinistro glamour e prestígio. À distância, seu criador não recebe royalties pela invenção e hoje, aos 86 anos, vive de forma modesta na Rússia, quase totalmente surdo, entre orgulhoso da filha lendária e constrangido por seu sobrenome ser a assinatura de milhões de mortes em guerras e conflitos.

AKs são considerados “o combustível que mantém prolongadas ‘pequenas guerras’ na Ásia, África, América do Sul e Oriente Médio”, como disse o autor da obra. Kalashnikov não aceitou dar entrevista para o livro e é chamado por Kahaner de “personalidade compassiva e trágica.” Uma das frases que ele mais repete na velhice resume o quanto é assombrado pelo terrível presente que deu ao mundo: “Eu gostaria de ter inventado um cortador de grama.” Mas agora é tarde.

O BRASIL NÃO É UM PAÍS CONFIÁVEL. É INGÊNUO E HESITANTE.

EUA veem Brasil ingênuo e hesitante na ONU - O GLOBO, 13/02/2011 às 06h41m, José Meirelles Passos


RIO - A julgar pelo conteúdo de uma série de documentos confidenciais do governo dos Estados Unidos, o Brasil não vai contar com o apoio - e o voto - dos americanos para realizar um sonho que persegue com determinação: conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. As autoridades americanas consideram o Brasil "cauteloso regionalmente, e hesitante globalmente".

"Se a rápida emergência do Brasil no cenário global é inquestionável, também é verdade que ele ainda é muito emergente", diz um dos telegramas. Outro reforça: "O Brasil já falhou amplamente em assumir um papel de liderança internacional que o tornaria um forte candidato para tal posição. O seu último período (como membro temporário) no Conselho de Segurança da ONU, que terminou em janeiro de 2006, foi caraterizado pela cautela e equívocos em vez de visão e liderança".

Um pacote de 37 telegramas produzidos pela embaixada dos EUA em Brasília, entre abril de 2004 e janeiro de 2010 - disponibilizados ao GLOBO pelo WikiLeaks - mostra essa missão diplomática sugerindo ao Departamento de Estado e à Casa Branca que o Brasil não está preparado para assumir aquela responsabilidade. Os despachos listam uma série de pontos negativos. Afirmam, por exemplo, que o governo brasileiro não tem a menor idéia do que acontece, de fato, no Oriente Médio. Suas posições ali são tidas como "ingênuas".

Algo que influi na avaliação americana é o estilo brasileiro de preferir o diálogo ao confronto. "O Brasil frequentemente permanece reticente em tomar posições firmes em assuntos chaves globais, e geralmente procura maneiras de evitá-los. Com muita frequência o governo brasileiro evita posições de liderança que poderiam exigir que escolhesse lados abertamente", diz outro documento, acrescentando que quando o Brasil está em posição de evidência demonstra desconforto.

O fato de o país geralmente se abster, nas votações da ONU, sobre abusos aos direitos humanos no Irã, Coréia do Norte e Sudão também é apontado como atitude que não o recomenda para o Conselho de Segurança. Os EUA ironizam o Brasil ao defini-lo como o país que acha que "pode falar com todo mundo", devido ao estilo do Itamaraty de procurar manter-se neutro e buscar saídas via negociação.

"Esse gosto pelo diálogo, junto com o respeito pela soberania e a intervenção em assuntos internos (de outros países)", diz um documento, "fazem com que se torne mais difícil ao país permanecer fiel a esses princípios, e fica mais difícil esconder as suas inconsistências, à medida em que o Brasil participa num crescente número de arenas internacionais".

Um dos telegramas diz que o fato de o governo Lula ser, de muitas formas, pragmático mas "cultivar uma forte ideologia esquerdista em política externa" mostram que o país não é confiável. "Isso, junto à histórica reticência do Itamaraty em adotar posições controvertidas, e a quase obsessiva preocupação com a imparcialidade, frequentemente leva o Brasil a adotar posições em situações chaves que consideramos desapontadoras".

Os documentos registram um claro ressentimento dos EUA em relação ao Brasil. "Grande parte da elite da política externa brasileira permanece cautelosa e desconfiada em relação aos EUA", diz um deles. Embora ambos governos declarem que existe uma parceria estratégica entre eles, os americanos desmentem isso nos bastidores: "O engajamento (do Brasil) com os EUA tem sido pragmático, em vez de estratégico". E se queixam: "Ao procurar por parceiros estratégicos o Brasil está mostrando clara preferência por outras forças emergentes 'independentes', como África do Sul, Turquia, Ucrânia, Irã, China, Índia; e uma potência mundial independente: a França".

Submarino nuclear é chamado de baleia branca

O governo americano acha que a insistência do Brasil em produzir um submarino nuclear tem menos a ver com a proteção das plataformas de petróleo pré-sal, como argumentou oficialmente o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e mais com o fato de que os cinco países que hoje têm assento permanente no Conselho de Segurança da ONU possuem tal equipamento. Ao mencionar o assunto, os americanos caçoam dessa pretensão.

"Essa baleia branca do Brasil pode, no final das contas, encalhar nos recifes de desafios técnicos e excesso de custos", diz um telegrama. E completa: "Na verdade, um submarino nuclear não melhoraria a segurança do Brasil, mas serviria como um duvidoso impulso para o machismo nacional".

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Depois do grande heróis da 2ª Guerra, General Charles André Joseph Marie de Gaulle (Lille, 22 de Novembro de 1890 – Colombey-les-Deux-Églises, 9 de Novembro de 1970) afirmar que o Brasil não era um país sério, só faltava agora a ONU dizer que o Brasil não é um país confiável nas questões de segurança e política externa. Do modo que estão as coisas e do modo como atuam nossos Poderes de Estado, acredito que todo brasileiro já tem consciência da veracidade dos dois predicados.