
Albert Fishlow, brasilianista, professor emérito da Universidade Columbia, de Nova York - MARIA ISABEL HAMMES - zero hora 12/06/2011
Senhor de um olhar profundo sobre a construção econômica brasileira, o economista norte-americano Albert Fishlow também projeta sob suas análises o desenvolvimento futuro do país, com suas mazelas e desafios. O brasilianista, que acaba de lançar por aqui O Novo Brasil – obra que retrata as mudanças não só na área da economia, mas também nas políticas sociais que transformaram o país nos últimos 25 anos –, esteve na última semana em Florianópolis, participando da Expogestão 2011, mas antes concedeu uma entrevista por e-mail a ZH.
Zero Hora – Depois de acompanhar o Brasil por tantas décadas e de sempre mostrar sentimento positivo em relação ao futuro do país, o senhor chegou a se surpreender com o salto dado pela nação brasileira nos últimos anos? Algo ainda pode brecar o avanço brasileiro?
Albert Fishlow – O salto não é surpreendente: é cumulativo. O necessário é continuar. Há muitas reformas faltando nas áreas política, econômica e social. No livro O Novo Brasil, tento elaborá-las.
ZH – Em quais setores o país deveria, a partir de agora, centrar seus esforços para garantir efetivamente o crescimento sustentado? Na educação?
Fishlow – Para crescer às taxas adequadas no futuro, o Brasil necessita tornar-se um país de educação universal e de boa qualidade. Não tem agora. Há diferenças grandes interregionais e entre os níveis. O custo por aluno na educação primária e média é baixo, e o custo universitário é alto em comparação aos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Avanços acontecem, mas só lentamente. Sem um compromisso verdadeiro, pode levar tempo demais.
ZH – O fato de o Brasil ter virado um dos alvos preferenciais dos investidores externos tem um outro lado – a enxurrada de dólares que entra no país e não permite uma taxa de câmbio mais razoável. Apesar de a desvalorização do dólar ser também um fenômeno mundial, como resolver a questão internamente, se é que é possível?
Fishlow – O país está enfrentando um momento difícil, como outros no mundo. O dinheiro que entra vai começar a se reduzir quando as taxas de juros aumentarem nos outros países e quando o Brasil eliminar o déficit fiscal contínuo. O câmbio também é uma medida que reflete o aumento dos preços das commodities nas exportações.
ZH – A inflação, que também atormenta outros países neste momento, voltou a preocupar os brasileiros. Como o senhor acompanha as medidas tomadas pelo governo que, até o momento, não surtiram o efeito esperado?
Fishlow – A inflação está acima da meta. Mas o Banco Central e a presidente Dilma já indicaram que vão lutar contra ela. É importante. Senão, começa de novo o perigo de preços subindo e o bem-estar da gente mais pobre caindo, como no passado.
ZH – Apesar dos avanços e de crescentes superávits, o país ainda não consegue avançar muito – permanecendo com ínfima participação nas relações comerciais mundiais. Como resolver isso e obter mais exportações de produtos com maior valor agregado e menos de produtos básicos?
Fishlow – A taxa de crescimento real da exportação das manufaturas tem aumentado, enquanto a de commodities não, só os preços. O Brasil ainda tem uma participação pequena no mercado mundial. Aí vem a necessidade de aumento da produtividade interna e mais gasto para inovação doméstica. Acho que esta direção é uma prioridade do governo no momento.
ZH – Outro ponto que preocupa é a deficiente infraestrutura que aumenta os custos da produção e atormenta a vida de milhões de brasileiros. O que o governo deveria fazer? Aumentar parcerias com investidores externos, já que não tem condições financeiras de tocar os projetos sozinho?
Fishlow – Aumentar investimento a uma taxa de 25% do PIB é necessário, se o Brasil pretende crescer a taxas anuais acima de 4%. O governo vai ter de aproveitar a cooperação do setor privado e fazê-lo. A infraestrutura é um bom exemplo – e a Copa do Mundo e os Jogos Olimpícos estão se aproximando.
ZH – Outro gap do momento enfrentado pela sociedade brasileira é o da falta de qualificação dos trabalhadores. De certa forma, essa situação já está, inclusive, freando a expansão de alguns setores e tende a se agravar. Como países desenvolvidos resolveram a dificuldade? Com aprimoramento de cursos técnicos, por exemplo?
Fishlow – No curto prazo, pode usar métodos como esses. Eles ajudam e aumentam a capacidade de trabalhadores antes sem qualificação. Mas, no médio e largo prazos, sem educação melhor e universal, não vai ficar adequado.
ZH – Quais as reformas que deveriam ser priorizadas pelo país: tributária, trabalhista, previdenciária? Como elas podem ajudar no salto do país?
Fishlow – No momento, creio que a reforma da previdência deve ter prioridade. Só assim, o Brasil consegue eliminar o déficit fiscal e ter os recursos necessários para o crescimento desejado. Há outras também, obviamente, mas é o lugar por onde se deve começar.
ZH – Como estudioso do Brasil, qual, em sua opinião, seria a maior virtude e o maior problema da sociedade nacional?
Fishlow – A maior virtude é o povo brasileiro, querendo – e merecendo – uma vida melhor. O problema maior é, até os anos recentes, a falta de políticas adequadas.
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